sexta-feira, 8 de maio de 2015

translação



por vinte e sete anos carrego esse globo de vidro ou quartzo que me nega o devir. ainda que abismal e estrelado, dentro de mim o globo gira. diria que é na verdade um planeta que deixa seus continentes caírem assim que vira sua face a um sol. diria que, ainda que negro, habitado por serpentes, irrigado por veias de fúria, vida surgiu. ainda que nele ninguém exista a gritar seus deuses, o tempo passa.

 from 2001: A Space Odyssey

vezenquando o globo guarda em espera a chama eterna que o fará microscópico. mas enquanto arde a chama, um galho adoecido se importa em surgir e inventa uma flor que nada sabe de latrocínios. ou imposto de renda. uma brisa em pensamento se esquece e qualquer coisa vibra sem aparecer, como sinais de rádio. já poderia ser dia nesse lugar confuso que ignora e recebe entendimentos de podres coitados -- perdidos, numa rocha molhada e grávida de anseios.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

polaroid do espelho


tonto. um dia te viraram a cabeça e te fizeram bobo. tonto. talvez não sejas. tonto. eles é que não conseguem escutar o fino deboche. eles não conseguem segurar o coração que escorre pela manga da camisa. tonto. seria a química imposta do pão branco e do óleo de soja? seria a falta de algum elemento aos anos onívoros? quem morreu e te fez rei? tonto. talvez a mão tremente. talvez o sorriso quebrado. talvez o olhar 'tome no cu' que te guarda de um jeito que nem a mãe conseguiu. mas eles ainda te vêm assim. tonto. morno. fácil. pífio. talvez a mente sóbria é que te invente essas coisas. provável. o que pensam de você = não é seu problema. truísmo, fato. mas o espelho não te nega. os óculos sempre tortos também. planos bem certinhos guardados em algum sovaco bem intencionado já não te prendem. fujamos. quebremos. atiremos. mas mas. portanto concluímos. tonto. te sobras seres tonto. é o mundo que gira e foge ao teu soco. é este espaço de coisas novas que nada te contam. nada te apaixona. para um jardim vertical és bastante bailarino. o vento não te esquece. tonto. 



segunda-feira, 9 de março de 2015

'&', segundo Igor Pablo Dutra e Wesley Costa



Em finais de março pretendo divulgar data e local do lançamento de meu livro '&'. Até lá, venho mostrando uma coisa aqui outra lá, como o poema 'dos processos' e um dos textos introdutórios à obra, escrito pelo poeta e amigo Bioque Mesito. Hoje quero divulgar também os outros dois textos, um de Igor Pablo Dutra e outro, de Wesley Costa, ambos companheiros de 'Acorde'... 

Enjoy them!

***
& Além 

Sebastião Ribeiro será considerado uma surpresa, apenas para quem ainda não teve o prazer de conhecê-lo. Para quem conviveu e convive, leu e lê, não será, há muito ele é mais que um talento que amadurece a cada viagem nos coletivos da vida. Um Homem que sabe de si (?), de sua arte, de sua força, de seu verbo. Um homem que tem a poesia em cada gaveta de seus dentes. 

A poesia de Sebastião tem seu encanto nas ‘esfinges’, ele desafia o leitor a caminhar com ele, lado a lado, passageiros da vida. O título do livro revela, em princípio, o mesmo enigma que sempre circunda a boa poesia, em minha visão, o acréscimo de cada verso e cada poema vai estabelecendo a existência/essência do poeta, e também, me mostra certa veia de escárnio. Um aprofundamento na obra -&- necessita de muito mais parágrafos e páginas que não poderei aqui. Fazer uma seleção e classificação de poemas seria eleger o erro, me resguardo desses equívocos, apesar da necessidade de dentear alguns, os quais, teço comentário abaixo. 

Em Mote, poema que abre o livro, a justificativa do ser poeta: “hoje/  é todos os espaços contornáveis preenchidos/ por dúvida”. O poeta manifesta suas incertezas hodiernas, seus vazios angustiantes e intemperáveis. Destaco ainda, a competência criadora do retalho de versos que vão desestabilizando os sentidos buscados pelo leitor. Isso, ocasionado pelos cortes sintáticos, que podem ser os próprios fragmentos do poeta. 

Em Provisório, nota-se a envergadura questionadora do labor poético: “gritos tenho alguns e mesmo que/ cheguem até o outro lado da matéria/ pouco dirão”. A poesia se justifica para quem? Esses gritos são a força motriz do poeta, que necessita expandir, mas, para onde? Não seria essa a luta vã? A quem destinar-se, é um segredo que pouco se sabe. O poeta demonstra sua imprecisão quanto ao que o homem quer encontrar, entretanto ele reconhece em seguida, o quem ele é, o quem somos, “sim/ o homem é a fruta podre que nutre/ a árvore sob o sol desfigurante”. 

O poeta profundamente inquieto, não poupa a inutilidade de muitos mundos, outros poemas deixam à mostra as cicatrizes invisíveis dele: “são dedos que na palma/ ciscam, separam para o norte/ o troco do tempo” ou os desejos corriqueiros e cavalares “cambiamos/ estações/ enforcamos/ sonos/ e neste corte na rocha/  buscamos um amor e prêmios/  de loteria” e ainda o afago que a poesia dá a nossa própria nulidade: “pego torcido e dito:/ cumprirás cada falta / em ti possível”. 

Iço o fim deste texto com as lindas palavras de Atavismo, na demonstração do não abatimento diante das circunstâncias do Ser Artista – “enquanto vibrar um desejo/  haverá dor & canto”. Esperemos pelos próximos brindes! 

   Igor Pablo Dutra*

* Poeta (participante de Acorde (Scortecci, 2011; com Sebastião Ribeiro e Wesley Costa) e professor de Literatura, formado pela Universidade Estadual do Maranhão

***

“Humano”

“&” de Sebastião Ribeiro situa-nos em um quarto: “é todos os espaços contornáveis preenchidos /por dúvida /é os móveis arborescidos no quarto /ocultando o fruto em cuja casca de vidro /me enxergo”. Talvez em um quintal onde o hábil escritor, ou/& seu eu-poemático parece perecer em sua situação de humano e sua existência em meio a ônibus cheios e cabeça lotada de dúvidas e certa melancolia que é passageira constante ao longo da obra. Mas ele reserva ainda espaços para alguma ternura e momentos singelos: “me abro /ao espetáculo /ao só solamente/ solizinho /pacto de viagem”. 

É notável o talento do escritor em propor densas imagens-ideias: “os móveis arborescidos no quarto”, “você abriu todas as portas/onde não deveria haver nenhuma”, “O poeta com medo de não ser convidado/ O poeta que está nunca o sendo”, “dá bom dia/e esbarra no vidro/de cada sorriso”, “Ouço a nota escura de um trombone”, “me via como uma lágrima/que tropeça”, “no ribeiro lutulento” (não haveria nesse verso algum murmúrio-pendor autobiográfico como possa sugerir seu próprio nome?). Prossegue o Sr. Ribeiro ou sua voz de poeta a observar a viagem e seus vários passageiros “a gente perde o trem/ das grandes coisas / quando não se cala:”. 

E volto a falar a respeito de “&” com a consciência de que as minhas palavras não medem a “proporção de sentido” do livro, pois não se trata de meramente enunciar que “&” está vestido em um terno e possui um sorriso melancólico (seria superficial assim proceder). Sei e declaro com franqueza que a obra contém mais que isso, porque é mais do que isso. Todavia, por enquanto limitar-me-ei em enfatizar esse “eu” dos/nos poemas que expõe muitas vezes a fragilidade do ser humano e sua estadia neste mundo em meio a tanta poeira e temporal. 

Weslley Costa*

*Escritor, participante de Acorde (Scortecci, 2011), juntamente com Igor-Pablo e Sebastião Ribeiro. Autor de Colham as Roupas Maduras do Varal (Scortecci, 2012). 

***




famélia (ou do que foi feito o laço)


todos reunidos mas como se deixados na mesa do jantar. o gesto que flutua no andar de pratos soprar de colheres não contenta o desejo por premonição que aguenta firme dentro de cada um deles. quem conhecerá uma queda quem começará de novo quem não suportará tantos ciclos quem denunciará a verdade. se entreolham se encostam se acomodam. um deles pede em nome de cristo uma paz bem feita ao modo do alimento que miram. Deus tem ouvidos derretidos. o pedido voa mas cede no ar ao peso de uma bala. o que havia ali, promessas, farsas, desconhecimentos, amor e derivados, vacila. tanto cuidado parece que foi colocado naqueles laços que agora vemos se arrastarem, se perderem numa distância.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

quemsoueudondevimprondevou



Espero que, se você encontrou este post, aproveite a entrevista cremosa que fizeram comigo para o blog do Portal do Escritor, da editora Scortecci. Clique aqui para lê-la. 

Beijos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

dos processos (poema de '&')


o que procuras pra onde vais o que serás, jumentinho?
***
dos processos

do dia de hoje
a marca duma manhã antiga
a falta que me conhece toda trilha
antes do passo assíduo de quem posso ter sido
antes de me conformar nesse corpo-mim

do dia em qualquer parte
a missão?
meu ritmo de burra prenhe fuçando lixo
não me deseja sentido
nem permite que nasça lógica numa perda

missão?
apanhar dez por cento de aumento
como a mosca de sorte sobre o gato vazio

do dia furado
o sono preciso
que plastifica minha sombra medrosa
feita de partes que piso e ainda assim voam

que diria um de meus pais perdidos
da fuga que não conheceram?

sobro em processo ciclo ou inferno
sobro do velho ou do inseto

me sobro no invento de outro labor
que não o do orgasmo perfunctório
de meus dias internos gastos e letais

(RIBEIRO, Sebastião. &São Paulo: Scortecci, 2015, pg. 100)

***

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rapel ou os dados de Deus (por Bioque Mesito)


A seguir: o primeiro texto de apresentação de meu livro &, que está no prelo e será lançado neste trimestre (data e local a confirmar). Tive a grande oportunidade e o consequente prazer em conhecer o poeta Bioque Mesito há 4 anos e acabar, inclusive, me tornando amigo do Fábio Henrique Gomes Brito também :-D De qualquer modo fiquei muito satisfeito com a colaboração e quero compartilhá-la com vocês. 

*

RAPEL OU OS DADOS DE DEUS


& daí se a vida fosse apenas a vida dentro de um livro de poesia? A obra de um poeta é sempre uma incógnita. Muitos preferem romances de mil e poucas páginas ou crônicas que falam do cara mijando pela manhã e comendo a mulher no final da noite (mera obviedade, infelizmente). Eu prefiro a poesia. Minha predileção é por bons livros de poesia.

Sebastião Ribeiro, em pleno século vinte e um, presenteia-nos com um livro de poesia. Que loucura! No mundo de modismos, de novas tecnologias, de pensamentos zen-isso ou aquilo, de padrões estéticos… Ele nos apresenta um livro de poesia. Sua estreia.

Talvez, por eu ser um misantropo assumido e goste de excentricidades, atento-me para os livros. Um livro de poesia é um cosmo de orgasmos. A música que toca dentro de um livro de poesia, o perfume, a simetria, a vida e tudo que se possa imaginar são indescritíveis.

Tudo vem deste & (livro espaçonave, bálsamo, canto, silêncio, pausa, grito), livro de estreia do poeta Sebastião Ribeiro. Se por acaso, mas só por um momento, acharem que estou exagerando, então abram as páginas iniciais deste.

É como uma revoada de pássaros, um monte de beleza e delírio, um som que quer explodir. Invenções fora do padrão, uma missa orgástica, a cruz dos dias que passamos parados no quarto escuro & a saída para tudo isso.

No poema Provisório, começa a confissão de suas sensatas e belas inquietudes: “o poema consome parte do tempo que me faria pegar um lotado menos cheio / o poema consome o homem abatido / queimando seu espírito fora do prazo de validade”.   

Até nas metalinguagens, Sebastião Ribeiro não derrapa. Digo isso, pois, o estilo já fora muito rebuscado e é sempre bom que se encontre outras saídas. Apesar de que em poesia tudo ou nada cabe. O poema Rubrica é um deboche/ode não simplória aos vates:

(...) 
O poeta na gaveta da meia-noite inteira
sem nada nos dedos
O poeta com medo de não ser convidado
O poeta que está nunca o sendo
O poeta cantando no último ônibus
O poeta e o corte social 

O poeta azul na garrafa de vodka
cansaço e refrigerante
O poeta possível na sala mal-iluminada
O poeta crível no incandefluorescente
O poeta merecido ao escuro movediço
O poeta na trilha do boy que o deixou
em slow-mo

(...) 
O poeta na calçada
e o nada metafórico
que ali o respondia
O poeta e o modo de usar
dos dentes permitidos
O poeta e o anti-histamínico
quando da volta do açougue
atrás dum cão conhecido

(...) 
O poeta é a senhora de pernas tortas
vivendo a lição que ressurreição alguma trouxe.

O ritmo quebrado de Sebastião Ribeiro é fantástico. É na imperfeição que se encontra a poesia. Versos belos, palavras belas, contextos belos fujam de nós pelo amor do divino. Estamos falando de poesia e não de buquê de flores. A feiura, o distorcido, a assimetria, a discordância dos moldes prontos é a mais pura poesia. Então, quando Sebastião Ribeiro quebra o ritmo, o faz da forma mais simples e consciente possível. Não tem medo de ousar, conferir palavras está fora de cogitação em suas crias. Ainda bem.

& tem o espírito de um jovem com cabeça de quarenta e poucos. Pois, destila poesia vinda de um ainda menino de vinte e poucos, mas com os pés e as mãos livres para dar continuidade a um projeto de vida, que é a sua poesia. 

O seu livro de estreia não poderia ser mais bem arquitetado. Tem conhecimento, vida, tesão, (des)esperança, tem poesia. É um primeiro livro, mas não é qualquer um. Tem pontuação. Quem abre e lê o & está pisando em uma rota de gratidão. 

Neste livro, os poemas que se destacam, segundo o nosso olhar, são: Ninho, Balancete, Matricídio, Pedágio, 28.12.2011, quarta-feira, 11:31, Contumaz réquiem dos vivos, Mula, Meio expediente, Este lado para cima, Dízimo, Homofobia, O que fazem as mariposas quando chove, Calopsia, Ritmo, Fast forward e Futuro: curto-circuito.

Porém, o suprassumo do livro, o que mais desperta para um caminho de grandeza literária são três poemas: Mote (& foi-se o tempo dos épicos / &  foi-se em seu inverso-interior aluminado o meu tempo / hoje é a luz receitando meus olhos/ hoje é todos os espaços contornáveis preenchidos por dúvida); Inevitáveis fotogramas na mente de uma ave de granja (dia / teu único olho / a boca me despe / 32 fouettés en tournant / na casa escura / eternos // inventas algo de frio / tamborilas um crânio que pende / num corpo de espuma) e o mais profundo e apaziguador poema de todos do livro: Voltas:

i.

5 da manhã
copo d’água ou banho frio
quem se apropria de quem

eu sou Macabéa
com alguma esperança

ii.

na única vez que criança
fui à praia
o que se afogou
persiste túmido mas eclipse
de um mistério habitante
desses que se vê
no olhar do motorista das 5 30

antes
sentir falta da areia
dormir em caravelas

agora há vazio
no imóvel que não tenho
na calvinkleinjeans que não uso
na alegria suposta
em servir o Laboratório Jesus
embalando sua água sanitária

já poderia fingir
fingir a vida
eficaz e exata
(feito um copo d’água ou
um banho de madrugada)

se
pudesse sumir rio ou me
esconder salino
em Bengala ou Guiné
mas não

antes disso
é preciso a certidão
de meu estado roxo e suspenso
sob a lâmina derretida
do estuário qualquer

iii.

A ÚNICA ESPERANÇA que me ocorre
na cabeça de menino pedubó
habita este planeta-estrela à minha frente
enquanto banho no quintal
às 5 num meio de fevereiro

Agora é sonhar maquinalmente
e fingir fingir não saber dessa conversa
de água e morte até receber
meu soldo

**

Bioque Mesito é poeta, foi colaborador do Jornal Pequeno e seu suplemento literário Guesa Errante, participante/ integrante de importantes grupos literários maranhenses nas décadas de 90 e 2000. Autor de A Inconstante Órbita dos Extremos (Cone Sul, 2001- IV Prêmio Universitário de Literatura) e A Anticópia dos Placebos Existenciais (EdFunc, 2008 - Prêmio Sousandrade do 31° Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís).


domingo, 21 de dezembro de 2014

bye


ele nega, se revolve, se esconde. a casa socorre seus pensamentos: segredos sob a mesa, pedidos nas teias do telhado; mas a inverdade, esta, não será mentira. um remendo do adeus se espalha pela cama (terei que lavar os lençóis). knock knock -- eu recuso. as paredes tremem como meu corpo sozinho no sofá. ânsia em reconfigurar no estômago o que se passa no domingão do faustão me libera, esqueço das unhas na boca dele.


loucos os dentes do siso me contraem a cada golpe de pinot noir. knock knock -- quem perece? acho que a sombra invertida do ladrão que recusa minha porta. vou te esperar sair no filme que já assisti. me poupe. a dança das horas me elege, entre tantos, a continuar ordenhando esses lances milenares de corpo no corpo, mas só eu os desfaço? knock knock -- cale a boca. se deite. aguarde a música. siga em frente.


domingo, 9 de novembro de 2014

attempt1



Poesia é uma espécie de língua secreta que serve mais à revelação do que ao obscurecimento (apesar do que se possa imaginar/ depreender do registro sofisticado e aparentemente impenetrável de alguns textos). Secreta, porque exige uma dose subjetiva na atitude de quem a recebe para apreciá-la – o reconhecimento do leitor nas palavras do poeta adquire um caráter de intimidade; porém reveladora, uma vez que se busca equipar de possibilidades interventoras no discurso cotidiano/ prosaico a fim de extrair aquela parcela abstrata, lúdica e, muitas vezes, inconfessável, que guardamos no uso social e perfunctório da linguagem.


Licença Creative Commons
gaveta, galáxia by Sebastião Ribeiro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 3.0 Unported License.