Este novo livro de Sebastião Ribeiro nasce num território de suspensão. Não se trata apenas de um estado emocional, mas de uma experiência de deslocamento: o sujeito poético parece sempre entre lugares, decisões e versões de si. A linguagem acompanha essa oscilação, avançando por desvios e súbitas iluminações.
Em textos como “Límbico” e “Alarme”, o corpo surge como campo de tensão: organismo afetivo, político e simbólico. O eu lírico se percebe lançado à gravidade do tempo, às falhas da percepção e às violências sutis do cotidiano. Há ciência, ironia e medo — mas tudo filtrado por uma sensibilidade que recusa o excesso de explicação.
A escrita prefere a fratura ao acabamento. As composições desdobram-se por imagens cortantes, raciocínios interrompidos e associações que aproximam o banal do cósmico. Viver passa a ser uma forma de flutuar sem mapa. O poeta admite o desamparo, mas não se rende a ele.
Os versos reconhecem o ruído do presente — guerras, automatismos, consumo, solidão —, mas também escutam seus restos de ternura. Um quarto, um toque, uma memória mínima, ainda conseguem interromper o colapso.
Limbo é um livro para quem aceita a poesia como experiência de instabilidade. Não promete saída, mas oferece travessia. Seus poemas não pedem adesão, demandam presença. E talvez seja isso que o torna tão instigante e necessário: escrever e ler como quem permanece de pé dentro da vertigem.
Samuel Marinho
poeta
*
Guia rápido
Desembale
a camada dos ciclos de tudo
que te instilaram como vício
Pare e inspire fundo e admita
haverá retorno ao ponto nemo
entre dois dias e duas semanas
Abra a boca
tente identificar o dono
do silêncio que te observa
e dos olhos em que se pensa
– só não esqueça
não te pertencem
Lembre dos caminhos
propositalmente relegados
à busca de sentido
Estoico
enumere o amor dos quinze o
dos vinte e oito o dos vinte e dois
que veio de ré aos trinta e quatro
– siga para as docas
Encontre a goiabeira
de onde caiu quando menino
pendure-se de cabeça para baixo
mentalize apenas o que estiver lá
Então aguarde
que em um lugar intangível
da esperança
os propósitos do nascimento
escorrerão dos teus ouvidos.
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