sexta-feira, 17 de julho de 2026

Samuel Marinho sobre LIMBO + poema


    Este novo livro de Sebastião Ribeiro nasce num território de suspensão. Não se trata apenas de um estado emocional, mas de uma experiência de deslocamento: o sujeito poético parece sempre entre lugares, decisões e versões de si. A linguagem acompanha essa oscilação, avançando por desvios e súbitas iluminações.

    Em textos como “Límbico” e “Alarme”, o corpo surge como campo de tensão: organismo afetivo, político e simbólico. O eu lírico se percebe lançado à gravidade do tempo, às falhas da percepção e às violências sutis do cotidiano. Há ciência, ironia e medo — mas tudo filtrado por uma sensibilidade que recusa o excesso de explicação.

    A escrita prefere a fratura ao acabamento. As composições desdobram-se por imagens cortantes, raciocínios interrompidos e associações que aproximam o banal do cósmico. Viver passa a ser uma forma de flutuar sem mapa. O poeta admite o desamparo, mas não se rende a ele.

    Os versos reconhecem o ruído do presente — guerras, automatismos, consumo, solidão —, mas também escutam seus restos de ternura. Um quarto, um toque, uma memória mínima, ainda conseguem interromper o colapso.

    Limbo é um livro para quem aceita a poesia como experiência de instabilidade. Não promete saída, mas oferece travessia. Seus poemas não pedem adesão, demandam presença. E talvez seja isso que o torna tão instigante e necessário: escrever e ler como quem permanece de pé dentro da vertigem.

Samuel Marinho

poeta

*

Guia rápido


Desembale 

a camada dos ciclos de tudo 

que te instilaram como vício


Pare e inspire fundo e admita 

haverá retorno ao ponto nemo 

entre dois dias e duas semanas


Abra a boca 

tente identificar o dono 

do silêncio que te observa 

e dos olhos em que se pensa 

– só não esqueça

não te pertencem


Lembre dos caminhos 

propositalmente relegados 

à busca de sentido


Estoico 

enumere o amor dos quinze o 

dos vinte e oito o dos vinte e dois 

que veio de ré aos trinta e quatro 

– siga para as docas


Encontre a goiabeira 

de onde caiu quando menino 

pendure-se de cabeça para baixo 

mentalize apenas o que estiver lá


Então aguarde 


que em um lugar intangível 

da esperança 

os propósitos do nascimento 

escorrerão dos teus ouvidos.

***



domingo, 20 de abril de 2025

Afinal, Solo!



The Aeroplane
, Alfred Stieglitz (1910)

   Acompanho a poética de Sebastião Ribeiro desde o primeiro livro. O autor de & e de Glitch harmoniza em Solo, no mesmo plano de criação, ponderações refinadas com o ultracotidiano. O talento identitário está em expor na superfície do texto roteiros da vida comum concomitante à densidade dos versos. As “miudezas da vida” convertidas no olhar para além do lugar — comum é, para mim, a expressão maior na poética desde ludovicense que vive um mosaico de Paço do Lumiar. 

    Porém, não há o maniqueísmo de praxe; as duas vias da existência se cruzam e se unem numa só, mão e contramão, freios e colisões. O poeta não nega o olhar diante de qualquer virada de chave, e não há desespero frente às situações. No lugar de passividade, porém, a concordância ativa, o que supõe construir, desconstruir indiferente a um ideal de resultado. Solo experimenta proporções em que a vida se esparge, e então surpresas e mistérios a compor o dia comum. Não simplifica, nem complexifica (embora a dor, embora o prazer). Nesse sentido, a vida sem enfeites surge para as imprevisibilidades de que a poesia é, senão ela mesma. Senso de apartamento, mães brigando com os filhos, gesso trincado, cinza dos azulejos da cozinha, essas são algumas das muitas expressões do corriqueiro sem a prévia estetização — aparições bruscas e inevitáveis. Nesse mesmo intervalo, o poeta acerca-se de imagens — junta as peças de uma apurada obra de arte. Previsíveis peças espalhadas, fáceis e reais ao domínio do ficcional de alta voltagem. 

    Urge dizer que Solo, apesar de conservar um projeto estético apático à cultura do consumo, se mostra mais carismático que os trabalhos anteriores de Sebastião Ribeiro. Não obstante, o poeta não inaugura procedimentos técnicos a romperem para uma padronização, não abre mão da excelência da linguagem. O que há é uma fluidez que desconsidera um leitor ideal. Dito de outra forma, as imagens nos eventos comuns descortinam um dia a dia de maior cumplicidade com o leitor. Porém, não se constata supressão de uma poética séria, nem truques de visibilidade. Ocorre que, não cedendo necessariamente para versos de fácil compreensão, o livro se assimila mais pela intuição e menos pela análise. 

    Vale acrescer que a relação da obra com o leitor solidifica uma criação poética refém de um tempo disperso, desprendido, declinável e possível. Tanto que o poeta ousa acreditar no sorriso dos outros de há 4 livros publicados. O homem na sua angústia de materializar a fonte dos poemas, de querer o pão sem metáfora. Sob contradições da vida, meras circunstâncias, ora o desejo de trair a poesia, ora a reclusão de esquecê-la, ora a curiosidade de nela crer, ora a chama de vivê-la, ora a vontade de dá-la a quem as escreve na vida. Enfim, solos ficamos — nosso estado de graça. Solos acompanhamos a linguagem que cede aos eventos ordinários simultâneos à inventividade poética, objeto de releituras da obra e de nós mesmos: (...) talvez / só devesse escrever / até o bar abrir / só escrever / talvez / o nome de um inseto / de um remédio / de um amante que / prometeu sem falar / Escrever / para reunir e partir / ao mesmo tempo / essas coisas / a névoa nos olhos / a lua ofuscante / o soltar das mãos / estão todos aqui / ao lado da cama / sem fazer questão / de entrar na história / ou vibrar o sentido / primevo de tudo. Afinal, solo!


G. Monteiro*


*Geovane Fernandes Monteiro é autor, entre outros, de Paradeiro (Editora Nova Aliança, 2016; contos).


sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Someday I’ll Love Ocean Vuong / Um dia amarei Ocean Vuong [Ocean Vuong]


Beautiful photomechanical prints of Lotus Flowers (1887–1897) by Ogawa Kazumasa.


Ocean, não tenha medo.

O fim da estrada é tão distante

que ela já está atrás de nós.

Não se preocupe. Teu pai só é teu pai

até que um de vocês esqueça. Como a coluna

não se lembrará das asas

não importa quantas vezes nossos joelhos

beijem a calçada. Ocean, 

está escutando? A parte mais bonita

do teu corpo é onde quer que

a sombra da tua mãe pouse.

Aqui está a casa com a infância 

reduzida a um único fio vermelho.

Não se preocupe. Apenas o chame horizonte

& você nunca o alcançará.

Aqui está o hoje. Pule. Prometo que ele não é

um bote salva-vidas. Aqui está o homem

de braços abertos o suficiente para recolher

tua partida. & aqui o momento,

logo que as luzes apagam, e você ainda pode enxergar

a tocha que some entre as pernas dele.

Como você a usa de novo & de novo

para encontrar as próprias mãos.

Você pediu uma segunda chance

& e te deram uma boca para estuar.

Não tenha medo, o tiroteio

é apenas o som de pessoas

tentando viver um pouco mais 

& falhando. Ocean. Ocean,

levante. A parte mais bonita do teu corpo

é para onde ele se encaminha. & lembre-se,

solidão ainda é tempo que se passa

com o mundo. Aqui está

o quarto com toda a gente.

Os amigos que morreram passam

através de ti como o vento

pelos sinos. Aqui está uma mesa

com uma perna bamba & um tijolo

para fazê-la durar mais. Sim, aqui está um quarto

tão aconchegante e ligado ao sangue,

que eu juro, você acordará

& pensará que estas paredes

são pele.


(Versão em português de Sebastião Ribeiro)

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Someday I’ll Love Ocean Vuong


Ocean, don’t be afraid.

The end of the road is so far ahead

it is already behind us.

Don’t worry. Your father is only your father

until one of you forgets. Like how the spine

won’t remember its wings

no matter how many times our knees

kiss the pavement. Ocean,

are you listening? The most beautiful part

of your body is wherever

your mother’s shadow falls.

Here’s the house with childhood

whittled down to a single red tripwire.

Don’t worry. Just call it horizon

& you’ll never reach it.

Here’s today. Jump. I promise it’s not

a lifeboat. Here’s the man

whose arms are wide enough to gather

your leaving. & here the moment,

just after the lights go out, when you can still see

the faint torch between his legs.

How you use it again & again

to find your own hands.

You asked for a second chance

& are given a mouth to empty into.

Don’t be afraid, the gunfire

is only the sound of people

trying to live a little longer 

& failing. Ocean. Ocean,

get up. The most beautiful part of your body

is where it’s headed. & remember,

loneliness is still time spent

with the world. Here’s

the room with everyone in it.

Your dead friends passing

through you like wind

through a wind chime. Here’s a desk

with the gimp leg & a brick

to make it last. Yes, here’s a room

so warm & blood-close,

I swear, you will wake—

& mistake these walls

for skin.

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*Ocean Vuong (1988) é um premiado poeta, romancista e ensaísta vietnamita-americano. Sua obra é permeada pelos temas da sexualidade, família, autoaceitação, o ser imigrante e as gerações nascidas pós-Guerra do Vietnã. O poema acima faz parte de Night Sky with Exit Wounds (“Céu Noturno Crivado de Balas”), ganhador do Whiting Award de 2016 e do T. S. Eliot Prize, em 2017. Site do autor aqui.


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