domingo, 3 de novembro de 2019
provisório
por
Sebastião Ribeiro
um motivo não tenho pronto
nem palavra calma que circunde
o que não é este espaço
desinteressante
e o que dele espera
algo do espaço e
afinal
de que espaço falamos?
gritos tenho alguns e mesmo que
cheguem até o outro lado da matéria
pouco dirão
alguns esperam daqui algo como
‘barco feroz
em cabeleira azul’
ou
‘tessitura molhada
duma alma’
mas
...
o poema consome parte do tempo
que me faria pegar um lotado menos cheio
o poema consome o homem abatido
queimando seu espírito fora do prazo de validade
sim
o homem é a fruta podre que nutre
a árvore sob o sol desfigurante
o homem em tudo que se conhece sou eu
que procura outros homens numa dúzia de maneiras tristes
maneiras que me pedem uma casa com plantas sem
metáfora
em seu terraço e mato surgido debaixo do concreto
bocejando
uma flor de cor aparentemente eterna
vejam pois que o escrito e os ossos que o
imprimem são um algo só
precisos & parados
num ou outro instante do dia
enfim
somos uma erva que índios evitam
RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
mimo
por
Sebastião Ribeiro
Isso ou aquilo no
que é possível
igual o troco pouco
no bolso
exige riscos de balé
atordoado
esperar que sejas o
sabão de erva-doce no
banheiro do shopping
ou que percebas meus
sapatos vermelhos
talvez seja muito
em torno de minha
ingratidão –
rebelde iconoclasta
com rendimentos de 0,69%
niilistamente vivo
funcionário público
quase cristão
esmero essa liberdade tola
que me arranca dos saltos
porém quanto de meu impulso
te importa? entrego a questão
para o porrilhão de deuses
amaciados no travesseiro
de viscoelástico
eu
sendo a cortesã que veste
a saia de flamboyant
natural que acabe por me vencer
assolando o mundo em chamas
retornar dessa carraspana
com pérolas e cinzas na língua
(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)
sábado, 4 de maio de 2019
as if i am someone else / como se eu fosse outrem [Douglas Piccinnini]
por
Sebastião Ribeiro
tanto depende
da autoridade
duma realidade
para me guiar
na lógica
da circunstância –
viver confortavelmente
mas desejar diferente.
![]() |
| Imagem de Colin Behrens, modificada com Photomosh |
...................................
so much depends
on the authority
of a reality
to guide me
in a logic
of circumstance —
to live comfortably
yet desire differently.
*mais do poeta AQUI (em inglês).
segunda-feira, 22 de abril de 2019
the suicide kid / o garoto suicida [Charles Bukowski]
por
Sebastião Ribeiro
Fui ao pior dos bares
esperando ser
morto.
mas só consegui
ficar bêbado
de novo.
pior, os donos do bar
acabaram foi
gostando de mim.
lá eu tentei ser
empurrado num canto
escuro
e acabei bebendo
de graça
enquanto por aí
algum filho da mãe
coitado estava num leito de
hospital,
tubos saindo dele
lutando
para viver.
ninguém me ajudaria a
morrer já que
a bebida continuava
vindo,
já que o amanhã
me esperava
com seus grampos de aço
seu anonimato
fétido,
sua atitude
descuidada.
a morte nem sempre
vem correndo
quando você
a chama,
nem mesmo se você
o faz
de um castelo
iluminado
ou de um transatlântico
ou do melhor bar
do mundo (ou
do pior).
tal impertinência
só faz os deuses
hesitarem e
protelarem.
pergunte-me: tenho
72.*
.......................................
I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn’t always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I’m
72.
*tradução minha de BUKOWSKI, Charles. the suicide kid in Slouching Towards Nirvana: New Poems. Harper Collins Publishers, 2005
quinta-feira, 28 de março de 2019
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
These poems/ Esses poemas [June Jordan]
por
Sebastião Ribeiro
Esses poemas
são coisas que faço
no escuro
para te alcançar
quem quer que sejas
e
estás pronto?
Esses poemas
são pedras na água
que corre
esses versos esqueléticos
são braços desesperados por minha ânsia e amor.
Eu sou um estranho
aprendendo a adorar os estranhos
ao meu redor
quem quer que sejas
quem quer que eu me torne.
………………………………………………………….
These poems
they are things that I do
in the dark
reaching for you
whoever you are
and
are you ready?
These words
they are stones in the water
running away
These skeletal lines
they are desperate arms for my longing and love.
I am a stranger
learning to worship the strangers
around me
whoever you are
whoever I may become.
June Jordan (1936 - 2002)
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Conheça mais sobre a autora em seu site oficial aqui (em inglês) e neste perfil do blog Escamandro, aqui (em português).
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
historieta / joke [Maggie Smith]
por
Sebastião Ribeiro
No que acho ser um
sonho,
vejo uma
manifestação do passado
& digo, sei
que você não é real. Tenho que dizer.
Como
a maioria das coisas de sonho, o passado
remodela-se,
reconstitui-se com novos
olhos
& novo penteado – o passado
transformado
– & então esqueço seu nome.
Esqueço
o que estou fazendo com ele.
Como é mesmo aquela historieta sobre o rio?
Não
é assim, uma piada, não mais que o passado
seja
mesmo passado – aquela
sobre a água nunca
ser
a mesma água. E ao passo que corre,
a
corrente do rio – agora, isso sim
é uma piada –
está
sempre passando agora agora agora. Depois
das
sete, quando acordo do que acho que
seja
um sonho – sonho onde digo ao passado
a
verdade sobre ele mesmo – ele é o presente
de
sempre. Não há passado.
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Joke
In what I think is a
dream,
I look at some
manifestation of the past
& say, I know
you’re not real. Someone has to.
As most dream-things
do, the past
shapeshifts,
reconstitutes itself with new
eyes & a new
haircut—the past
made over—& then I forget its name.
I forget what I’m
doing with the past.
What is that joke
about the river?
It’s not really a
joke, no more than the past
is really past—the
one about water never
being the same
water. As it flows past,
the river’s
current—now that’s a joke—
is always flowing
now, now, now. Past
seven, when I wake
from what I think
is a dream—a dream
where I tell the past
the truth about
itself—it is the present
as it always is.
There is no past.
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Conheça melhor a autora AQUI (en español) e AQUI (in English).
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
um livro de música / a book of music [Jack Spicer]
por
Sebastião Ribeiro
Chegando a um fim, os amantes
exaustos como
se houvessem nadado. Onde
acabou? Não houve
anúncio. Amor algum
é oceano de
procissão tonteada no limite das ondas
onde os dois
emergem exauridos, nem longo adeus
como a morte.
Chegando a um fim.
Bem, eu diria, como a altura de
um rolo de corda
que não disfarça
na ponta das tranças
seus fins.
Mas, você dirá,
nós amamos
e algumas partes de
nós amaram
e o resto de nós
permanecerá
duas pessoas. Sim,
a poesia termina
como uma corda.
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Coming at an end, the lovers
Are exhausted like
two swimmers. Where
Did it end? There
is no telling. No love is
Like an ocean with
the dizzy procession of the waves’ boundaries
From which two can
emerge exhausted, nor long goodbye
Like death.
Coming at an end.
Rather, I would say, like a length
Of coiled rope
Which does not
disguise in the final twists of its lengths
Its endings.
But, you will say,
we loved
And some parts of us
loved
And the rest of us
will remain
Two persons. Yes,
Poetry ends like a
rope.
***
Para saber mais do autor, ler esta ótima introdução da revista Modo de Usar & co.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
medo
por
Sebastião Ribeiro
à boca da cachoeira estão as palavras. o pesado silêncio está nos anos imensos dentro das pedras. o corpo dói prevendo a queda: d'água, abismada.
o mundo sorve meu riso pouco, o grito pequeno. sobrevoo micro-suficiências. oro feito uma folha velha pela sorte dos meus, por nossa vida.
momentos se acumulam sob explosões desentendidas. o peso do medo mastiga minhas costas. me equilibro entre o mergulhar e o sumir.
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