segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

These poems/ Esses poemas [June Jordan]


Esses poemas
são coisas que faço
no escuro
para te alcançar
quem quer que sejas
e
estás pronto?

Esses poemas
são pedras na água
que corre

esses versos esqueléticos
são braços desesperados por minha ânsia e amor.

Eu sou um estranho
aprendendo a adorar os estranhos
ao meu redor

quem quer que sejas
quem quer que eu me torne.


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These poems
they are things that I do
in the dark
reaching for you
whoever you are
and
are you ready?

These words
they are stones in the water
running away

These skeletal lines
they are desperate arms for my longing and love.

I am a stranger
learning to worship the strangers
around me

whoever you are
whoever I may become.

June Jordan (1936 - 2002)

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Conheça mais sobre a autora em seu site oficial aqui (em inglês) e neste perfil do blog Escamandro, aqui (em português).


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

historieta / joke [Maggie Smith]



No que acho ser um sonho,
vejo uma manifestação do passado

& digo, sei que você não é real. Tenho que dizer.
Como a maioria das coisas de sonho, o passado

remodela-se, reconstitui-se com novos
olhos & novo penteado – o passado

transformado – & então esqueço seu nome.
Esqueço o que estou fazendo com ele.

Como é mesmo aquela historieta sobre o rio?
Não é assim, uma piada, não mais que o passado

seja mesmo passado – aquela sobre a água nunca
ser a mesma água. E ao passo que corre,

a corrente do rio – agora, isso sim é uma piada –
está sempre passando agora agora agora. Depois

das sete, quando acordo do que acho que
seja um sonho – sonho onde digo ao passado

a verdade sobre ele mesmo – ele é o presente
de sempre. Não há passado.



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Joke

In what I think is a dream,
I look at some manifestation of the past

& say, I know you’re not real. Someone has to.
As most dream-things do, the past

shapeshifts, reconstitutes itself with new
eyes & a new haircut—the past

made over—& then I forget its name.
I forget what I’m doing with the past.

What is that joke about the river?
It’s not really a joke, no more than the past

is really past—the one about water never
being the same water. As it flows past,

the river’s current—now that’s a joke—
is always flowing now, now, now. Past

seven, when I wake from what I think
is a dream—a dream where I tell the past

the truth about itself—it is the present
as it always is. There is no past.

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Conheça melhor a autora AQUI (en español) e AQUI (in English).


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

um livro de música / a book of music [Jack Spicer]


Chegando a um fim, os amantes
exaustos como se houvessem nadado. Onde
acabou? Não houve anúncio. Amor algum
é oceano de procissão tonteada no limite das ondas
onde os dois emergem exauridos, nem longo adeus
como a morte.
Chegando a um fim. Bem, eu diria, como a altura de
um rolo de corda
que não disfarça na ponta das tranças
seus fins.
Mas, você dirá, nós amamos
e algumas partes de nós amaram
e o resto de nós permanecerá
duas pessoas. Sim,
a poesia termina como uma corda.

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Coming at an end, the lovers
Are exhausted like two swimmers. Where
Did it end? There is no telling. No love is
Like an ocean with the dizzy procession of the waves’ boundaries
From which two can emerge exhausted, nor long goodbye
Like death.
Coming at an end. Rather, I would say, like a length
Of coiled rope
Which does not disguise in the final twists of its lengths
Its endings.
But, you will say, we loved
And some parts of us loved
And the rest of us will remain
Two persons. Yes,
Poetry ends like a rope.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

medo



à boca da cachoeira estão as palavras. o pesado silêncio está nos anos imensos dentro das pedras. o corpo dói prevendo a queda: d'água, abismada.

o mundo sorve meu riso pouco, o grito pequeno. sobrevoo micro-suficiências. oro feito uma folha velha pela sorte dos meus, por nossa vida.

momentos se acumulam sob explosões desentendidas. o peso do medo mastiga minhas costas. me equilibro entre o mergulhar e o sumir.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

escrever 2


PHOTOMOSH em foto de Craig Cooper on Unsplash

Luto contra ou por um temor. Se é perda, euforia, cegueira ou canibalismo, não consigo avaliar. Talvez seja tudo. E mais um pouco. 

Não desvio mais do silêncio. Porém, reflito: até quando dorme, até onde chega. De qual intenção é, para que, alguém ganhará algo disso?

Os dias pesam em meu estômago, não parecem nem alegria nem tristeza, nem aparente motivo (que se foda o poeta, Cecília.)... Os dias pesam no remodelo do futuro.

Os dias: eu os sorvo, os digo, não os conto.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

escrever



Escrever -- necessito. Mas sem acreditar no que vejo. Esperar os estalos sem surpresa. Correr de algo, sem esperança. 

Escrever como quem não desiste, mas aguarda. Como quem afasta, mas nutre. Que a vida não faça aquela curva que nos apresenta o precipício.

Escrever, mas como quem gora. Como quem se judia, se morde. Escrever como quem tropeça e vê que a pedra é o futuro e não será terra para vermes antes de nós.


domingo, 1 de julho de 2018

[uma viagem de metrô]/ [a subway ride], Joseph O. Legaspi


Sua maestralmente desarrumada loiríssima cabeça sustenta fones de ouvido gigantes. Como um busto contemporâneo. Vejo a inocência das sardas, a boca túrgida, vermelha e madura. Como se a mera visão do mundo o machucasse, ele semicerra ingenuamente os olhos e aplica colírio. Você sonha com ele chorando por você. Pela duração de uma viagem de metrô você se apaixona cegamente. Até que ele desça. Ou até que você desça, indo pra casa ao que você realmente ama para feri-lo.*



His artfully unkempt strawberry blonde head sports outsized headphones. Like a contemporary bust. Behold the innocence of the freckles, ripe pout of cherry lips. As if the mere sight of the world hurts him, he squints greenly and applies saline drops. You dream him crying over you. For the duration of a subway ride you fall blindly in love. Until he exits. Or you exit, returning home to the one you truly love to ravish him.

§  §  §

*Tradução minha de LEGASPI, Joseph O. [a subway ride]. in Subways: Thrush Press, 2013. leia mais sobre o autor aqui (in English).


domingo, 6 de maio de 2018

currículo [resumé, dorothy parker]


Resumé

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


Currículo

Navalhas te ferem;
Rios são úmidos;
Ácidos te marcam;
E drogas dão câimbra.
Armas não são legais;
Nós corrediços cedem;
Gas cheira muito mal;
Tu podes apenas viver.

(tradução minha de PARKER, Dorothy. Resumé. in The Portable Dorothy Parker. New York: Viking Press, 1973)



Conheça melhor a autora AQUI.


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