quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

quemsoueudondevimprondevou



Espero que, se você encontrou este post, aproveite a entrevista cremosa que fizeram comigo para o blog do Portal do Escritor, da editora Scortecci. Clique aqui para lê-la. 

Beijos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

dos processos (poema de '&')


o que procuras pra onde vais o que serás, jumentinho?
***
dos processos

do dia de hoje
a marca duma manhã antiga
a falta que me conhece toda trilha
antes do passo assíduo de quem posso ter sido
antes de me conformar nesse corpo-mim

do dia em qualquer parte
a missão?
meu ritmo de burra prenhe fuçando lixo
não me deseja sentido
nem permite que nasça lógica numa perda

missão?
apanhar dez por cento de aumento
como a mosca de sorte sobre o gato vazio

do dia furado
o sono preciso
que plastifica minha sombra medrosa
feita de partes que piso e ainda assim voam

que diria um de meus pais perdidos
da fuga que não conheceram?

sobro em processo ciclo ou inferno
sobro do velho ou do inseto

me sobro no invento de outro labor
que não o do orgasmo perfunctório
de meus dias internos gastos e letais

(RIBEIRO, Sebastião. &São Paulo: Scortecci, 2015, pg. 100)

***

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rapel ou os dados de Deus (por Bioque Mesito)


A seguir: o primeiro texto de apresentação de meu livro &, que está no prelo e será lançado neste trimestre (data e local a confirmar). Tive a grande oportunidade e o consequente prazer em conhecer o poeta Bioque Mesito há 4 anos e acabar, inclusive, me tornando amigo do Fábio Henrique Gomes Brito também :-D De qualquer modo fiquei muito satisfeito com a colaboração e quero compartilhá-la com vocês. 

*

RAPEL OU OS DADOS DE DEUS


& daí se a vida fosse apenas a vida dentro de um livro de poesia? A obra de um poeta é sempre uma incógnita. Muitos preferem romances de mil e poucas páginas ou crônicas que falam do cara mijando pela manhã e comendo a mulher no final da noite (mera obviedade, infelizmente). Eu prefiro a poesia. Minha predileção é por bons livros de poesia.

Sebastião Ribeiro, em pleno século vinte e um, presenteia-nos com um livro de poesia. Que loucura! No mundo de modismos, de novas tecnologias, de pensamentos zen-isso ou aquilo, de padrões estéticos… Ele nos apresenta um livro de poesia. Sua estreia.

Talvez, por eu ser um misantropo assumido e goste de excentricidades, atento-me para os livros. Um livro de poesia é um cosmo de orgasmos. A música que toca dentro de um livro de poesia, o perfume, a simetria, a vida e tudo que se possa imaginar são indescritíveis.

Tudo vem deste & (livro espaçonave, bálsamo, canto, silêncio, pausa, grito), livro de estreia do poeta Sebastião Ribeiro. Se por acaso, mas só por um momento, acharem que estou exagerando, então abram as páginas iniciais deste.

É como uma revoada de pássaros, um monte de beleza e delírio, um som que quer explodir. Invenções fora do padrão, uma missa orgástica, a cruz dos dias que passamos parados no quarto escuro & a saída para tudo isso.

No poema Provisório, começa a confissão de suas sensatas e belas inquietudes: “o poema consome parte do tempo que me faria pegar um lotado menos cheio / o poema consome o homem abatido / queimando seu espírito fora do prazo de validade”.   

Até nas metalinguagens, Sebastião Ribeiro não derrapa. Digo isso, pois, o estilo já fora muito rebuscado e é sempre bom que se encontre outras saídas. Apesar de que em poesia tudo ou nada cabe. O poema Rubrica é um deboche/ode não simplória aos vates:

(...) 
O poeta na gaveta da meia-noite inteira
sem nada nos dedos
O poeta com medo de não ser convidado
O poeta que está nunca o sendo
O poeta cantando no último ônibus
O poeta e o corte social 

O poeta azul na garrafa de vodka
cansaço e refrigerante
O poeta possível na sala mal-iluminada
O poeta crível no incandefluorescente
O poeta merecido ao escuro movediço
O poeta na trilha do boy que o deixou
em slow-mo

(...) 
O poeta na calçada
e o nada metafórico
que ali o respondia
O poeta e o modo de usar
dos dentes permitidos
O poeta e o anti-histamínico
quando da volta do açougue
atrás dum cão conhecido

(...) 
O poeta é a senhora de pernas tortas
vivendo a lição que ressurreição alguma trouxe.

O ritmo quebrado de Sebastião Ribeiro é fantástico. É na imperfeição que se encontra a poesia. Versos belos, palavras belas, contextos belos fujam de nós pelo amor do divino. Estamos falando de poesia e não de buquê de flores. A feiura, o distorcido, a assimetria, a discordância dos moldes prontos é a mais pura poesia. Então, quando Sebastião Ribeiro quebra o ritmo, o faz da forma mais simples e consciente possível. Não tem medo de ousar, conferir palavras está fora de cogitação em suas crias. Ainda bem.

& tem o espírito de um jovem com cabeça de quarenta e poucos. Pois, destila poesia vinda de um ainda menino de vinte e poucos, mas com os pés e as mãos livres para dar continuidade a um projeto de vida, que é a sua poesia. 

O seu livro de estreia não poderia ser mais bem arquitetado. Tem conhecimento, vida, tesão, (des)esperança, tem poesia. É um primeiro livro, mas não é qualquer um. Tem pontuação. Quem abre e lê o & está pisando em uma rota de gratidão. 

Neste livro, os poemas que se destacam, segundo o nosso olhar, são: Ninho, Balancete, Matricídio, Pedágio, 28.12.2011, quarta-feira, 11:31, Contumaz réquiem dos vivos, Mula, Meio expediente, Este lado para cima, Dízimo, Homofobia, O que fazem as mariposas quando chove, Calopsia, Ritmo, Fast forward e Futuro: curto-circuito.

Porém, o suprassumo do livro, o que mais desperta para um caminho de grandeza literária são três poemas: Mote (& foi-se o tempo dos épicos / &  foi-se em seu inverso-interior aluminado o meu tempo / hoje é a luz receitando meus olhos/ hoje é todos os espaços contornáveis preenchidos por dúvida); Inevitáveis fotogramas na mente de uma ave de granja (dia / teu único olho / a boca me despe / 32 fouettés en tournant / na casa escura / eternos // inventas algo de frio / tamborilas um crânio que pende / num corpo de espuma) e o mais profundo e apaziguador poema de todos do livro: Voltas:

i.

5 da manhã
copo d’água ou banho frio
quem se apropria de quem

eu sou Macabéa
com alguma esperança

ii.

na única vez que criança
fui à praia
o que se afogou
persiste túmido mas eclipse
de um mistério habitante
desses que se vê
no olhar do motorista das 5 30

antes
sentir falta da areia
dormir em caravelas

agora há vazio
no imóvel que não tenho
na calvinkleinjeans que não uso
na alegria suposta
em servir o Laboratório Jesus
embalando sua água sanitária

já poderia fingir
fingir a vida
eficaz e exata
(feito um copo d’água ou
um banho de madrugada)

se
pudesse sumir rio ou me
esconder salino
em Bengala ou Guiné
mas não

antes disso
é preciso a certidão
de meu estado roxo e suspenso
sob a lâmina derretida
do estuário qualquer

iii.

A ÚNICA ESPERANÇA que me ocorre
na cabeça de menino pedubó
habita este planeta-estrela à minha frente
enquanto banho no quintal
às 5 num meio de fevereiro

Agora é sonhar maquinalmente
e fingir fingir não saber dessa conversa
de água e morte até receber
meu soldo

**

Bioque Mesito é poeta, foi colaborador do Jornal Pequeno e seu suplemento literário Guesa Errante, participante/ integrante de importantes grupos literários maranhenses nas décadas de 90 e 2000. Autor de A Inconstante Órbita dos Extremos (Cone Sul, 2001- IV Prêmio Universitário de Literatura) e A Anticópia dos Placebos Existenciais (EdFunc, 2008 - Prêmio Sousandrade do 31° Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís).


domingo, 21 de dezembro de 2014

bye


ele nega, se revolve, se esconde. a casa socorre seus pensamentos: segredos sob a mesa, pedidos nas teias do telhado; mas a inverdade, esta, não será mentira. um remendo do adeus se espalha pela cama (terei que lavar os lençóis). knock knock -- eu recuso. as paredes tremem como meu corpo sozinho no sofá. ânsia em reconfigurar no estômago o que se passa no domingão do faustão me libera, esqueço das unhas na boca dele.


loucos os dentes do siso me contraem a cada golpe de pinot noir. knock knock -- quem perece? acho que a sombra invertida do ladrão que recusa minha porta. vou te esperar sair no filme que já assisti. me poupe. a dança das horas me elege, entre tantos, a continuar ordenhando esses lances milenares de corpo no corpo, mas só eu os desfaço? knock knock -- cale a boca. se deite. aguarde a música. siga em frente.


domingo, 9 de novembro de 2014

attempt1



Poesia é uma espécie de língua secreta que serve mais à revelação do que ao obscurecimento (apesar do que se possa imaginar/ depreender do registro sofisticado e aparentemente impenetrável de alguns textos). Secreta, porque exige uma dose subjetiva na atitude de quem a recebe para apreciá-la – o reconhecimento do leitor nas palavras do poeta adquire um caráter de intimidade; porém reveladora, uma vez que se busca equipar de possibilidades interventoras no discurso cotidiano/ prosaico a fim de extrair aquela parcela abstrata, lúdica e, muitas vezes, inconfessável, que guardamos no uso social e perfunctório da linguagem.


domingo, 2 de novembro de 2014

fugidiço


Não me soa novidade: faltas são falhas. Ou expectativas tortas ou rachaduras nas paredes. Me pergunto o que se foi, ou, o que nunca esteve aqui. Ainda que viva o suficiente para esboçar ou deduzir uma resposta, seguirei feito desses atalhos que não me conhecem lugar algum, nem os drinques, nem as compras, nem os amantes.

Nem os amigos, que me esfregando as falhas na cara, na verdade me cutucam as faltas. Na conclusão de tudo só terei a mim mesmo sem espelhos, anyway.



Difícil de evitar a sensação de cavar por debaixo de tua casa. Desde menino, as formigas me enviam sinais inúteis. O gato brinca de me vigiar. Mamãe viaja. Tesão inevitável de 2 em 2 dias. Aquela cantora estreante nascida em '88 me trará algo obsedante? Meu livro sai próximo ano. Ando por andar. Perdoe-me, Senhor.

Faltas são falhas. Talvez eu deva fazer como quando menino: procurar buracos no muro do quintal, ainda esperançoso dos diáfanos, buscando no terreno do vizinho plantas, roupa estendida ou entulho [lá certa vez, encontrei um exemplar de Papillon]; vezenquando alguém tomando banho... Ou qualquer outra coisa que me vibre o apetite.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Homofobia, em SUBSTÂNSIA nº 3



*
[Dedico este post a tod@s que, em algum ponto de suas vidas -- estando ou não entre nós materialmente -- acabaram (em vários níveis e perspectivas) se afundando, por conta da recusa de muitos em respeitar e/ou tentar compreender que, não pertence à Natureza ou à Humanidade o padrão puro, a perfeição absoluta ou o completo domínio de nossa essência.]
*


Me satisfaz muito o fato de poder compartilhar este poema com meus possíveis leitores, pela força e pela história por trás dele. 

Ele é um dos textos em que mais trabalhei, pois queria imprimi-lo do desconforto, medo, raiva, tristeza e abulia que circundam e penetram o corpo e espírito de quem é vítima do preconceito, seja ele explícito ou velado; por parte de um desconhecido ou de um 'amigo'; no comentário malicioso, 'inocentemente' jocoso ou não intencionado, ou mesmo no claro discurso de ódio.

Mais que defender direitos ou promover causas, conceitos ou agruras do universo homossexual, o que me interessa aqui não é trabalhar o engajamento simples e puro; pretendo, sim, informar e estimular meus leitores sobre o quanto a intolerância -- direcionada, motivada pela homofobia ou, por que não, qualquer outro tipo de discriminação a qualquer outro grupo, classe ou comunidade -- agride, esvazia e, muitas vezes, mata.






quarta-feira, 20 de agosto de 2014

minha amiga cachorra


nunca me acometeu o quão sábio é teu hábito de cheirar das pessoas os joelhos. agora entendo o porque do olhar vigilante, inquieto; a razão por trás da língua constantemente para fora. 

querida, 
não me é estranho te ver coçando os mamilos com o que, humanos, conhecemos como pés. dentre tuas pe(n)sadas atitudes, neste momento que nos observamos, a que mais admiro é o fato de não teres o rabo preso.


sábado, 19 de julho de 2014

lutuoso



Flowers left on debris of flight MH17 (Reuters)


oferecer flores: a primeira e última coisa a fazer. talvez por serem mudas, absortas. 

a coisa mais bela e rápida que apazigue o negro e nos emerge além da palavra ou do som. 

há cores, cheiros que nos levam e buscam além e por dentro do frio.

é o que nossos braços neste instante permitem; o que nossos olhos desejam; o que um dia foi espírito presume: estamos mudos.  

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ah, mas não há flores. 

os que se vão e os que olham esperam a medida do mutismo. ainda que existam a palavra 'catatonia', a expressão 'thousand-yard stare', pouco sobra ao luto. 

somos a sobra do luto. 

a busca, se há alguma, é pelo fim de algo -- aquele momento em que não importa se somos nós que iremos queimar.

mas há flores nalgum lugar à parte da estiagem em nossa existência. como elas, seremos adequados: mudos, absortos.

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#mh17
#withgaza


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