quinta-feira, 22 de novembro de 2018
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
medo
por
Sebastião Ribeiro
à boca da cachoeira estão as palavras. o pesado silêncio está nos anos imensos dentro das pedras. o corpo dói prevendo a queda: d'água, abismada.
o mundo sorve meu riso pouco, o grito pequeno. sobrevoo micro-suficiências. oro feito uma folha velha pela sorte dos meus, por nossa vida.
momentos se acumulam sob explosões desentendidas. o peso do medo mastiga minhas costas. me equilibro entre o mergulhar e o sumir.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
escrever 2
por
Sebastião Ribeiro
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| PHOTOMOSH em foto de Craig Cooper on Unsplash |
Luto contra ou por um temor. Se é perda, euforia, cegueira ou canibalismo, não consigo avaliar. Talvez seja tudo. E mais um pouco.
Não desvio mais do silêncio. Porém, reflito: até quando dorme, até onde chega. De qual intenção é, para que, alguém ganhará algo disso?
Os dias pesam em meu estômago, não parecem nem alegria nem tristeza, nem aparente motivo (que se foda o poeta, Cecília.)... Os dias pesam no remodelo do futuro.
Os dias: eu os sorvo, os digo, não os conto.
Os dias: eu os sorvo, os digo, não os conto.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
escrever
por
Sebastião Ribeiro
Escrever -- necessito. Mas sem acreditar no que vejo. Esperar os estalos sem surpresa. Correr de algo, sem esperança.
Escrever como quem não desiste, mas aguarda. Como quem afasta, mas nutre. Que a vida não faça aquela curva que nos apresenta o precipício.
Escrever, mas como quem gora. Como quem se judia, se morde. Escrever como quem tropeça e vê que a pedra é o futuro e não será terra para vermes antes de nós.
domingo, 1 de julho de 2018
[uma viagem de metrô]/ [a subway ride], Joseph O. Legaspi
por
Sebastião Ribeiro
Sua
maestralmente desarrumada loiríssima cabeça sustenta fones de
ouvido gigantes. Como um busto contemporâneo. Vejo a inocência das
sardas, a boca túrgida, vermelha e madura. Como se a mera visão do
mundo o machucasse, ele semicerra ingenuamente os olhos e aplica
colírio. Você sonha com ele chorando por você. Pela duração de
uma viagem de metrô você se apaixona cegamente. Até que ele desça.
Ou até que você desça, indo pra casa ao que você realmente ama
para feri-lo.*
His artfully unkempt
strawberry blonde head sports outsized headphones. Like a
contemporary bust. Behold the innocence of the freckles, ripe pout
of cherry lips. As if the mere sight of the world hurts him, he
squints greenly and applies saline drops. You dream him crying over
you. For the duration of a subway ride you fall blindly in love.
Until he exits. Or you exit, returning home to the one you truly
love to ravish him.
§ § §
*Tradução minha de LEGASPI, Joseph O. [a subway ride]. in Subways: Thrush Press, 2013. leia mais sobre o autor aqui (in English).
domingo, 3 de junho de 2018
domingo, 6 de maio de 2018
currículo [resumé, dorothy parker]
por
Sebastião Ribeiro
Resumé
Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.
Currículo
Navalhas te ferem;
Rios são úmidos;
Ácidos te marcam;
E drogas dão câimbra.
Armas não são legais;
Nós corrediços cedem;
Gas cheira muito mal;
Tu podes apenas viver.
(tradução minha de PARKER, Dorothy. Resumé. in The Portable Dorothy Parker. New York: Viking Press, 1973)
Conheça melhor a autora AQUI.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
idade de consentimento
por
Sebastião Ribeiro
Não consigo satisfação até falar com anjos
Preciso mirar o olho de deus
lançar meu ser ao cosmos como isca aos milagres
tomar o ar e derramar visões
destrancar aquela porta que já está aberta e entrar na presença
do que não consigo imaginar
Preciso de respostas para o que ainda não sei as perguntas
Exijo acesso ao conhecimento, à possibilidade dentro do milagroso
a presença da luz massacrante
talvez do mesmo modo que lagartas exigem suas asas lepdópteras
ou girinos exigem sua sapice
ou o filho do homem exige a saída
do seguro, morno útero
*
Age of Consent
I cannot be satisfied until I speak with angels
I require to behold the eye of god
to cast my own being into the cosmos as bait for miracles
to breathe air and spew visions
to unlock that door which stands already open and enter into the presence
of that which I cannot imagine
I require answers for which I have not yet learned the questions
I demand the access of enlightenment, the permutation into the miraculous
the presence of the unendurable light
perhaps in the same way that caterpillars demand their lepidoptera wings
or tadpoles demand their froghood
or the child of man demands his exit
from the safe warm womb
(tradução minha de Age of Consent in KANDEL, Lenore. Collected Poems of Lenore Kandel/with a preface by Diane di Prima. Berkeley, California: North Atlantic Books, 2012)
__________________________________
Lenore Kandel (14.01.1932. Nova Iorque - 18.10.2009, São Francisco) foi uma poeta americana, ligada ao movimento beat. Em vida, publicou pouquíssimo -- formalmente falando, entretanto sua poesia, carregada de um sentimento/entendimento erótico, causou impacto.
A razão desta tradução foi o deslumbramento com o texto Age of Consent, motivado pela curiosidade em conhecer mais de Kandel. Fui impelido e inspirado à busca pela notícia de que Kandel tratava a poesia como uma experiência de autoconsciência (tanto que via um problema em tratá-la como algo à vista e disposição de todos; a poesia perderia muito do seu propósito original, salvo minha ignorância).
Perdido como estou, relembrar disso me ajuda a destravar algumas pendências do meu caminho e relação com a poesia. Se isso será o bastante, não sei dizer ainda; mesmo que não, já vale como um apito em minha cabeça.
Esta é minha forma de agradecer e homenagear Kandel.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
face à
por
Sebastião Ribeiro
A mensagem está dormente (ou será cansada). Opressões circundam o meio-termo da liberdade. Entre doente e estranho, de alguma forma o corpo está pendurado à sorte de um todo: povo, cultura, política, seu vômito, a desesperança e meu resto de dignidade.
Assim, enlameado, preso pelo pescoço a um poste velho, reconheço outros cães. Mas ainda só espero. O caminho me será mostrado.
Aguardo-me.
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