sexta-feira, 1 de novembro de 2013

®


Pela noite, antes da vodca, distinguir formas passa por identificar as mesmas estampas nas costumeiras e esperadas camisetas pretas. 

Aos pés sempre caem os mesmos vermelhos, o mesmo couro rasgável no caminho de pedras já conhecido. 

Ainda fossem os mesmos dedos, os mesmos calcanhares, ombros, pescoços e nádegas fregueses – os olhos cansados pedem mais álcool deslizando trementes na falta de fantasias. 

Reverberam luzes, esticam-se os sons, afogamos torpores na direção de arte de todos estes lugares prontos, ansiosos por nossa carne ainda que mais pelo nosso dinheiro – este, gastamos masturbatoriamente, foda-se a sociedade do capital. 

Mas caímos contraditórios, cegos que nos banhamos em commodities do sonho & da expectativa. 

Repito-me sonolento após o shot de tequila: o corpo clama, o corpo clama. 

E o corpo continua alienado. 

E conheço parte das mentiras. 

Aceito quase todas as regras do jogo. 

A esperança ainda apita. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

bula iii


há uma coisa de descontente e incerto em cada linha que surge.

da maneira que surge, não prevejo forma ou tamanho.

também não se trata de dizer o indizível, e sim de forçar um discurso de maneira que seja socialmente tolerado, e consequentemente, sujeito a rótulos, envolto em clichês...

é quase um caju bonito de gosto não esperado.

vejo que é também algo um pouco acima da conversa do símbolo > ícone. são atos tímidos escondidos, gestos meio que pequeninos imersos em escuro.

mas ainda lhe ouço o quebrar dos ossículos das mãos, talvez veja um brilho denunciante de olho ou dente, um ofegar sobriamente ritmado que, obviamente, chama  embora ainda queira que nunca cheguemos ali.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

fim?



Se começasse pelo fim, diria: não é o fim. 

Mas é nesse hausto que há no meio é que se alça a existência, a fisicidade das coisas, daqui vem isso que nos lembra que ainda não é o fim, por mais que a caminhada seja pedregosa, o curso do rio não exista, fungos te saboreiem as folhas... 

A esperança, dizem, é a última que morre, mas conheço algo que a enfraquece lentamente: o desejo de calar-se. Não há canção, tropo ou refrão que te traga da dificuldade ou sirva a desgastá-la de fato. Mesmo as ladainhas rotineiras, que alguns simplesmente adoram desfiar, mesmo as ladainhas, já não servem a coisa alguma, mesmo as ladainhas que possam servir a um esclarecimento ou outro.

O melhor (ou não) de tudo é a grande oferta de conselhos, auxílios, promessas que existem para entupir o descontentamento, como me entupia de remédios que fazem dormir. *Você sempre será o escolhido, bola pra frente que atrás vem gente, as coisas vão melhorar (ainda que não seja um número exato, meu espírito consegue contar milhares de vezes o quanto essas coisas foram ditas a um só ser humano).* Quando?

Não temos o direito de ficar triste, de estar insatisfeito – comparando sua situação com a de outros que realmente vivem em desgraça –, de pensarmos que tudo poderia ser melhor. Dizem, não é? Estão em parte certos. Ou esperamos que estivessem? Querer que estejam é pedir muito, mesmo a um mal agradecido como eu.

Desde pequeno sabia que seria sempre um pouco cego, um pouco surdo, um pouco oco.




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

selenographia



Selenographia, ORIEBIRO, 2013

aquele que desejo projeta uma menção de seus medos ao fundo destes sulcos em meu rosto. se pudesse os miraria como o menino que um dia fora e agora ignora em favor de seu cigarro, sua bebida, seu parceiro para a foda-desta-noite que ainda não surgiu; aquele que desejo ainda se nega ainda se reveste com as cercas que todas as vozes conhecidas lhe forneceram. aquele ali busca retoma toda uma mídia interna e nos nega um além da órbita da expectativa. eu mesmo me jogo ao sono muitas vezes na fuga de um inegável instinto precioso, tão imerso me acho num cofo de sibilos. então caio em rewind, tropeçando no que deveria ter sido, no que não acatei quando o corpo chamou enquanto aquele que desejo soprou-se, fez-se asa em sua própria beleza. redivivo feito um sinal, supondo sobre as marcas que estão em sua mente, retorno ao caminho estranho da sobrevivência no fundo destes sulcos, destes poços, ecoando o silêncio plástico encontrável no procellarum. 





quinta-feira, 4 de julho de 2013

sem braços ou pernas, do tamanho de um jabuti


os miolos: ainda presos em junho, sem espelhos ou discursos que lhe garantam imortalidade ou notoriedade ao que lhes é preciso saber: são miolos. 

os miolos em si, em questão, meus, se... whatever, se constituem o núcleo duma informação (até o momento) de funcionalidade pouco clara ao impulso presente nesse ato de dedilhar o plástico; quem sabe o fato de ainda estarem em junho, da falta de espelhos ou dos discursos pertinentes e relevantes ajude a esclarecer o silêncio por onde se esconde meu ativismo, minhas chamas, minha presença.

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este texto poderia ser sobre 'amor'.

mas é sobretudo sobre 'dúvida'.

provável que não encontres palavras que circundem as em aspas acima, mas é que elas se escondem no sono dos caracteres.

primeiro, deveria ser sobre amor porque sinto o tempo, os olhos, os homens.

segundo, sobre dúvida, porque não é certo o que se deve fazer quando oportunidades em ser amado não sugerem a completude de sua expectativa ou desejo.

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os miolos juninos entram na história como o esquecimento de certas teorias sobre o querer que a juventude se encarrega de fazer pesar.

ao mesmo tempo, os miolos juninos aparecem porque os reservo num canto de sonho incompreensível e pouco funcional. sonhei noite passada com um bebê asiático sem braços ou pernas e que tinha o tamanho de um jabuti. de onde diabos haveria ligação disso com alguém te querendo e não se poder retribuir?

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status: retribuindo as próprias expectativas.

com mais esperas.


terça-feira, 25 de junho de 2013

n° 169



Mas já não sei a quem pertence aquela parte de meu tempo disposta a compreender os que pouco me entendem. Passo passo observo. Nenhum movimento brusco -- não me interessa. Minha suavidade não implica condescendência, necessariamente. Soa como se o mundo não me apetecesse. Na verdade, anos dedilhando coisas deste coração acabaram por abrir caminho aos ouvidos. Quanto aos olhos, esperam. 

C-A-D-A-C-O-I-S-A-E-M-S-E-U-T-E-M-P-O. 

Não lavo minhas mãos, as contemplo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

untitled poem - 6 months y. o.




N

soubesse
que seria assim
fácil:
da pupila imóvel
não me sinto mais
em hectares
nem traço de abismo
nem curva de rua morta
que de teus olhos
me viessem
feitos para serem
castanhos
& irritantes o suficiente
para que eu os cante
desviando-me deles
escrevendo
em meu destino
poucas novidades
talvez que parei neles
e não me encontrei
talvez que repeti
o mesmo fim conhecido
desde kaváfis ou antes
ou que não há ritmo
que conhecesse que
justificasse
frustração constante
ou ainda que
dez anos
do primeiro verso torto
voltei a escrever
sem sabê-lo
concluindo o fazer
em busca de projeções
travesseiros sonoros
ou velocidade cantante
da palavra insistente
que explica & esconde
algum gesto
suspenso
noutro
canal de tv


N


domingo, 21 de abril de 2013

inevitável feito abrir os olhos e ver ou não ver



colhes algumas ideias superficiais sobre a superfície, comparando bochechas e revestimentos antiaderentes, vezenquando se conformando, outrossim se rendendo á beleza do vocábulo 'outrossim'.

consequentemente, enquanto deslizas morro abaixo na consciência, um pouco de sangue na testa te lembra que, fato, revolves questões levemente mais profundas, provável sobre a impossibilidade.  


ab

só no quarto buscas uma voz em sol que te sustente na verdade indominável da impossibilidade. 

uma vez que teus lábios se tornaram polidos ao gosto das panelas de inox, a forma daqueles olhos, daqueles dentes, arrancam qualquer coisa em ti.

arrancam.




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