terça-feira, 14 de abril de 2020

test(amento)emunho



Concluo
o coração está cheio de pensar

nas mãos parece imbricado
no arbusto invisível
fundos duma casa de taipa

para sempre lhe haverá
cobradores prontos a negar
rios de cólera e excretas
em cada homem de pé – em defesa
da base aliada sistema financeiro internacional
e do asteroide insano que não irá nos fritar

se deixo além de suspensões
é um mistério pela metade

Imagem de irenesanet editada por mim em PHOTOMOSH


deixei um teorema violento
e tonitruante a jean franko
e numa caixa
faltas fugindo do tiroteio
to bobby kendall

pela distância de um olhar bêbado
há gotas de dracena me indicando o nife

é possível que encontrem
um armarinho inteiro nas valas cavadas aqui
por esse descontente/indignado alfabetizado

no resto do tacho
me assombra a alegria pentelha
que desonra descontrola e acende
me estica os braços me põe na cama

finalmente
direi do planeta mais próximo
em mim tudo se fumou
sublime autocombustão

RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017

segunda-feira, 30 de março de 2020

the wayfarer,... / o viajante,... [Stephen Crane]


Imagem de LoggaWiggler editada por mim em PHOTOMOSH


O viajante,
Avistando o caminho para a verdade,
Foi atingido pelo espanto.
O caminho foi tomado pelo mato.
"Ah", disse ele,
“Vejo que nada passa por aqui
há muito tempo."
Logo depois, viu que cada erva ali
Era uma lâmina peculiar.
"Bem", murmurou enfim,
"Sem dúvida, existem outros rumos."

***
The wayfarer,
Perceiving the pathway to truth,
Was struck with astonishment.
It was thickly grown with weeds.
“Ha,” he said,
“I see that none has passed here
“In a long time.”
Later he saw that each weed
Was a singular knife.
“Well,” he mumbled at last,
“Doubtless there are other roads.”


CRANE, Stephen. The wayfarer,... in War is kind. The Project Gutenberg, outubro de 2011. Disponível em: http://www.gutenberg.org/files/9870/9870-h/9870-h.htm


Conheça mais do autor aqui e here.

segunda-feira, 16 de março de 2020

fins*


Imagem de carloyuen editada por mim em photomosh.com


                                                                 para P.

Espelho em vista fosca
nossos ombros se desfazem
todas as sombras acenam adeus

o céu manchado de óleo me
renuncia mea-culpas coletadas
entre troncos no passado

fui arrancado de qualquer coisa
insuspeita no gesto-vinheta do
grito: 1⁄2 lamúria 1⁄2 crença

— essa biana na lonjura
leva bichos da água incauta
que não conhece adormecer


                                                                                (RIBEIRO, Sebastião. Memento. no prelo, 2020)


*esse e outros poemas podem ser lidos em Mallamargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

pedágio


Imagem de skeeze, editada por mim no PHOTOMOSH


são dedos que na palma
ciscam, separam para o norte
o troco do tempo

– mar encoberto de gravidade
que cruzo em ritmo de náutilo

o que quer que me alcance
tem contorno de presa fácil,
destino em me ser quando
não mais serei e

avanço
até que’u me seja o
tudo que preciso no fim




                                                                          RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

calopsia


Imagem de Horacio Lozada por Pixabay, modificada com PHOTOMOSH

o que somos nós hein

por dentro já quebrei os pratos
mas

escolhemos
o rosé evaporado em nossos olhos

esqueci das panarizes e do aluguel

preferimos duelar pela multidão
embora nosso peito esteja vazio

eu te vejo e me vem a vontade
de mastigar-me a cabeça
fugir deste teu abraço que

não sei se é
comercial de carro
ou plano de saúde

quando percebo que todos querem
ver nosso jogo de palavras
penso

(o caralho que vão)

pois aqui do lado
nessa vala brilhante
o esgoto desliza e delineia

o que não é o silêncio
o que nunca dirás
o que voltará como clichê
nalgum funeral

tudo se resumirá a

fuga

                                                                           RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015.

sábado, 7 de dezembro de 2019

doppelgänger





Estaria satisfeito
bilocado
assistido pelo inverso
interior desdobrado?

Onde está o som
de seus passos?

Corre serpente
carcomendo-me abraços
liquefeito absorto
me revivendo o salto

porém me agulha
me formiga
colhe o perfeito tempo
velho bom um
bom malévolo

Em seus bolsos
as pedras que sonho
quem sabe se aluga
na alheia coragem

desvia o olhar
arranca-lhes a capa

Seria ele
feitor das faltas
moço que sangra
se arrasta
seria ele a barca

Quem sabe
há uma lenda:
deito em seus olhos
finjo não estar aqui

RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017

domingo, 3 de novembro de 2019

provisório



um motivo não tenho pronto
nem palavra calma que circunde
o que não é este espaço
desinteressante
e o que dele espera
algo do espaço e
afinal
de que espaço falamos?

gritos tenho alguns e mesmo que
cheguem até o outro lado da matéria
pouco dirão

alguns esperam daqui algo como
                                         ‘barco feroz
                          em cabeleira azul’
             ou
     ‘tessitura molhada
                     duma alma’
mas
...

o poema consome parte do tempo
que me faria pegar um lotado menos cheio
o poema consome o homem abatido
queimando seu espírito fora do prazo de validade

sim
o homem é a fruta podre que nutre
a árvore sob o sol desfigurante

o homem em tudo que se conhece sou eu
que procura outros homens numa dúzia de maneiras tristes

maneiras que me pedem uma casa com plantas sem
                                                                            metáfora
em seu terraço e mato surgido debaixo do concreto
                                                                            bocejando
uma flor de cor aparentemente eterna

vejam pois que o escrito e os ossos que o
imprimem são um algo só
precisos & parados
num ou outro instante do dia

enfim
somos uma erva que índios evitam

                                                                                                               RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

mimo



Isso ou aquilo no
que é possível
igual o troco pouco
no bolso

exige riscos de balé
atordoado
esperar que sejas o
sabão de erva-doce no
banheiro do shopping
ou que percebas meus
sapatos vermelhos

talvez seja muito
em torno de minha
ingratidão –
rebelde iconoclasta
com rendimentos de 0,69%

niilistamente vivo
funcionário público
quase cristão

esmero essa liberdade tola
que me arranca dos saltos
porém quanto de meu impulso
te importa? entrego a questão
para o porrilhão de deuses
amaciados no travesseiro
de viscoelástico

eu
sendo a cortesã que veste
a saia de flamboyant
natural que acabe por me vencer
assolando o mundo em chamas

retornar dessa carraspana
com pérolas e cinzas na língua

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)

sábado, 4 de maio de 2019

as if i am someone else / como se eu fosse outrem [Douglas Piccinnini]


tanto depende
da autoridade

duma realidade
para me guiar

na lógica
da circunstância –

viver confortavelmente
mas desejar diferente.


Imagem de  Colin Behrens, modificada com Photomosh

...................................

so much depends
on the authority

of a reality
to guide me

in a logic
of circumstance —

to live comfortably
yet desire differently.



*mais do poeta AQUI (em inglês).


segunda-feira, 22 de abril de 2019

the suicide kid / o garoto suicida [Charles Bukowski]



Fui ao pior dos bares
esperando ser
morto.
mas só consegui
ficar bêbado
de novo.
pior, os donos do bar
acabaram foi
gostando de mim.
lá eu tentei ser
empurrado num canto
escuro
e acabei bebendo
de graça
enquanto por aí
algum filho da mãe
coitado estava num leito de
hospital,
tubos saindo dele
lutando
para viver.
ninguém me ajudaria a
morrer já que
a bebida continuava
vindo,
já que o amanhã
me esperava
com seus grampos de aço
seu anonimato
fétido,
sua atitude
descuidada.
a morte nem sempre
vem correndo
quando você
a chama,
nem mesmo se você
o faz
de um castelo
iluminado
ou de um transatlântico
ou do melhor bar
do mundo (ou
do pior).
tal impertinência
só faz os deuses
hesitarem e
protelarem.
pergunte-me: tenho
72.*

.......................................



I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn’t always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I’m
72.

*tradução minha de BUKOWSKI, Charles. the suicide kid in Slouching Towards Nirvana: New Poems. Harper Collins Publishers, 2005

Mais do autor aquiaqui.



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