sábado, 19 de julho de 2014

lutuoso



Flowers left on debris of flight MH17 (Reuters)


oferecer flores: a primeira e última coisa a fazer. talvez por serem mudas, absortas. 

a coisa mais bela e rápida que apazigue o negro e nos emerge além da palavra ou do som. 

há cores, cheiros que nos levam e buscam além e por dentro do frio.

é o que nossos braços neste instante permitem; o que nossos olhos desejam; o que um dia foi espírito presume: estamos mudos.  

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ah, mas não há flores. 

os que se vão e os que olham esperam a medida do mutismo. ainda que existam a palavra 'catatonia', a expressão 'thousand-yard stare', pouco sobra ao luto. 

somos a sobra do luto. 

a busca, se há alguma, é pelo fim de algo -- aquele momento em que não importa se somos nós que iremos queimar.

mas há flores nalgum lugar à parte da estiagem em nossa existência. como elas, seremos adequados: mudos, absortos.

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#mh17
#withgaza


segunda-feira, 2 de junho de 2014

mundotudo


Tudo começa continua e termina na memória que o mundo impôs ao meu corpo disponível. Lembro de umas histórias sobre chegar a conhecer algo vindo dos olhos de alguém. Tentei confirmá-la com peixes, gatos, formigas, galinhas, cachorros. Vezenquando as verifico com gente, mas ao contrário do que aprendi com os bichos, com gente só via fugas. Absorvia fugas. 

Mal entendi o que as fugas eram.

O mundo toca minhas mãos e me corrige: você deve aprender isso, decorar aquilo, parecer isto daquilo, nisso naquilo outro outrem talvez. Natural, pois ainda sou um pedaço disponível a tantos. 

Diria a eles no momento certo, 'ei, teus olhos furiosos por me inocular sofismas e teorias só me repetem a palavra resina'. 

Já nem sei o que fui quando me acreditavam bloqueado para os movimentos do mundo e de tudo.

Em minha presente idade (que tenta identificar minha existência), tudo começa ou continua ou termina e do mundo já recuso o toque. Ainda sou de buscar uma resposta ou outra nos olhos dos cães parados/atropelados e ainda acredito que neles há mais que resina. Ao mundo e tudo só confirmo três ou mais palavras; 

só que agora preciso é virá-las do avesso... sondar-lhes o algo de morno que só o bicho me diz.


domingo, 13 de abril de 2014

defeito.default


Julgo porque não sei o que pensar e humilho porque não sei o que fazer e critico porque não sei o que falar e destruo porque não sei como sentir e desisto porque não sei o que sonhar e me sobro neste texto raso porque se soubesse escrever algo profundo não julgaria humilharia criticaria destruiria ou desistiria coisa alguma

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

para que(m) serve um poeta?


Fato que serve para alguém que não questione tal.

Serve também para os de ouvidos cansados, mentes que imitam o ciclo da água e do nitrogênio, e também para aqueles que acham que ouvir o rádio já não é o bastante.

Serve para dar voz aos vegetais e ao que de vegetal em nós existe. Serve para fazer da vida algo que seja suficiente sempre faltando.

Serve para nos tornar próximos de algo tão misterioso ou hipotético como a energia escura ou o proto-indo-europeu.

Ou pode servir para qualquer outra coisa que se considere que sirva, uma vez que em meu país pessoas morrem por futebol e boa parte está em paz com a alienação e retrocesso político e sócio-cultural.

Serve também para não continuarmos entendendo as formas que o Cristianismo tomou.

Serve para nos ajudar a fugir do grosseiro inconsciente coletivo que nos deixa voluntariamente calados. Ou mesmo silentes, por anos.

Serve a aqueles que vomitam por uma causa e não sofrem de ejaculação precoce da opinião.

Serve para abrir o coração de quem foi usado ou se deixou usar, ou ainda aos que mal sabem a diferença entre uso e usura.

Serve para ser o que se é sendo Arte sendo tudo sendo vala.

Serve para ______________________________________________________________.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

3d


"I am enough of an artist to draw freely upon my imagination. Imagination is more important than knowledge. Knowledge is limited. Imagination encircles the world." [Einstein]


Apesar de nunca me ter sido dito, imagino que meus poemas, especialmente os mais recentes, carregam uma força contrária (mas não essencialmente negativa) à alegria pura e despretensiosa de viver. É uma reflexão ao nível mais próximo possível da negação da vida, mas ainda não seu fim ou o desejo de que se finde. A melhor imagem que represente isso seria a de alguém na ponta de um penhasco. Mas

____ o que me incita a este comentário é o fato de quão específicas algumas personalidades podem ser e de como pode haver compreensão eficaz da Arte numa recepção tão diversa. Semana passada, numa mesa com cervejas, ouvi de alguém que os outros componentes da mesa julgavam 'inteligente' que, não sabia o que pensar de um poema porque o que estava ali escrito só serviria ao entendimento de seu próprio autor. Sorte minha que comungava da situação de óculos escuros e estava sentindo uma considerável impressão niilista naquele momento, logo o colocado não me atingiu como o poderia.

Sobre isso dito, claro, na escala inconsciente coletiva de sua reprodução, eu só tenho uma coisa a dizer: pobre daquele que não pensa com sua imaginação. A existência por si só já é algo pitoresco -- por vezes risível -- o bastante. Me cansa ter de testemunhar quem ainda acha que é uma obrigação entrar na briga prática x teoria objetivo x subjetivo ar x concreto pelo bel prazer dos cartesianos e metódicos.

Não. Obrigado.

A não ser que você se permita imaginar (e não estou limitando o sentido da palavra imaginar ao quase sinônimo 'fantasiar'), pensar como ser humano completo -- lógica, sentimento, sensação, inconsciente, etc. -- que é (incluindo um pouco mais que o conhecimento acadêmico ou a solução empírica ou racionalizante), não vai adiantar refolhar meus textos que deixam a luz da vida mais um abajur que um holofote. 

Como poeta, como Artista, meu sentimento e visão de missão não é só compartilhar; é também distorcer uma situação, um fato, uma constatação, um ponto de vista... enfim, entender e fazer entender algo holisticamente. Poesia é considerar a existência e seus guizos em 3D.


yearning






Kymia Nawabi









domingo, 29 de dezembro de 2013

And there's no mystical design/No cosmic lover preassigned


caminhei calado por um tempo que alguns chamam existência. chegar até aqui é simplesmente chegar até mim. parte do que me sobrou quase deixado para trás lhe dei, até o instante em que percebi que de fato lhe tinha consignado.

num de repente mas que sempre repent presente algo em teu gesto inútil grita: "Vá!"

fui. daqui eu saio mas ninguém me tira.




vou falar até onde um ouvido me alcance. você não merece minha calma, minha polidez de água caindo em cristal.

que você se surpreenda encruado e apodrecido em sua própria incapacidade de dizer que não me quer mais.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

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gaveta, galáxia by Sebastião Ribeiro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 3.0 Unported License.