sexta-feira, 19 de agosto de 2011

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                              a R. C. 

que tipo de ver é
este que lembra e
lembrando esparsa
seu vapor no corpo
incapaz de tomar-se
o uísque poderoso
que derrama de
qualquer coisa
que em ti indo
fica
enfática
insondável
frutuosa
delirante
                        
                      © Sebastião Ribeiro 

sábado, 6 de agosto de 2011

I


Será o amor, o salário arenoso ou a falta de proteínas a me fazer assim? Assim como? Assim, desta maneira quieta e explosiva, desta maneira com recheio de morango. Desta maneira é que faço poesia, e  - como assim?-, assim como desta maneira sou, Deus te diga o que quis dizer-te comigo (Quintana agora...).

Será a falta de amor, será o 'que é o amor?', será simplesmente a fúria bi-diária de enrolar-se nas coxas alheias, será a sede em falar aqui, assim, afim de mim, e para onde isto irá? Será que irá? Vai-se indo. E Deus queira esclarecer-me perante teu desejo.

Será enfim esta letra de música que não lembro, dizia o que mesmo? Só lembro que era Arcade Fire... Talvez fosse, mas não assim como assim vou, ou estou. Meu dia que espelha tantos outros busca seu selo oficial: os poemas que aqui não ponho. Ainda. Assim. Como assim? Deus queira te jogar um pedregulho à caminhada para nada te dizer sobre que quis Ele murmurar a meu respeito.

sábado, 30 de julho de 2011

contradição nº 897


Precisei de algo muito forte que elucidasse o já conhecido fato da força de gato que uma palavra tem. Provei de uma ira profunda e sincera, ira que me ancorasse no ridículo, e então aí, descobri a palavra deitada e luxuriosa buscando um amante virgem (trecho honestamente disponível à interpretação pelo método histórico-biográfico).

Dos senhores sentados na porta de suas casas, do comerciante que abre às tardes de sábado, da falta de moradia à moradia limítrofe da inabitável, palavra alguma forrará o chão. Dos milhões de gritos e surras e escrutínios disponíveis neste país, dos milhões destinados à erradicação da miséria (qual?) e da lisura, o que da palavra não será cinza de lenha antiga?

Meus leitores, a grande palavra é a que mergulhou na calda de sentido de tantos silêncios. Dentre eles, a Lei. Sinto que o compromisso dos que querem viver na pretensa força de uma palavra buscando Arte andam gozando-a de tal forma que qualquer onanismo é brinquedo. Meus senhores, amemos, mas não esqueçamos de acordar cedo para o trabalho. Por que? O mundo deseja. 

Question: Até onde um poeta desejoso da fuga pode chegar? O que a palavra interessa à fuga? Que é uma palavra na fuga? E de fuga?
Answer: Algumas palavras relacionadas por um fio de cobre talvez respondam mais pela sua forma de adorno que a de utensílio. Que utensílio precisamos? O que é o utensílio?

Answers...

domingo, 24 de julho de 2011

black


Não existem muitas palavras que interessem mesmo a mim neste instante. Ando colhendo-as, observando todos os lados, sem medo de usá-las quando não gostam de como elas caem em mim; sabe, coisa de consumidor destes tempos.

Às voltas com o nada oriental, sei que existe uma fonte que recheia os vãos ocidentais. As palavras também parecem vir dali, então anuncio frequentemente este silêncio que absorve e liberta, mesmo que em termos.

Quero mesmo é compreender o conjunto de direções que enlevam e manipulam ao mesmo tempo meus olhos e voz. Eu parei para buscar um som em que possa acreditar.

a Amy Winehouse

quarta-feira, 6 de julho de 2011

você referente

Ando dormindo, mas com a baioneta ao lado. E não sei ao certo, porém, mesmo um vulto corre o risco de se machucar com meus golpes no ar. E como guarda que vigia,  inevitável o cansaço esmurrá-lo. Daí uma suposição, se vigio por proteger ou vigio por exigência – de quem, vai saber.

Esta tentativa de metaforizar acima é produto do que creio acreditar (!) como viável – vejam: viável, não certo; do que creio realizável e compartilhável em poesia. Penso aqui que, para ser visualizado aqui, teria que discorrer com minhas parcas armas de defesa sobre pra que raios poesia hoje e onde faz e como se come; acontece que de certa forma diluo isto por aí de tantas maneiras, que a única maneira que vejo como verdadeira para considerarmos a poesia atualmente é: relaxe... e goze, se puder.

Tentarei mais uma vez me explicar. Acredito piamente na capacidade das pessoas, do ser pensante, digamos, até que este se prove indubitavelmente incapaz de coisa alguma. Quem escreve ou quem quer pensar quem escreve ou como quem escreve ou se não escreve, o quer fazer sem pensar, ou ainda, pensá-lo sem fazê-lo, nos ajuda com o descrédito de que a recepção não é importante. Eu digo, sim e não. Explico novamente: a palavra chave para uma boa relação com o leitor ou o vendedor de ovos da esquina é relativização (Deus, mesmo o Universo e a Natureza são relativos, por que eu quereria ser absoluto?!). A recepção geralmente não deve se meter no trabalho do escritor e vice-versa. Por que? Porque a relação entre quem escreve e quem lê é cimentada na afinidade e na reciprocidade. Do contrário, ambos se contradiriam como um ou outro.

O diálogo é deveras importante e construtivo. Mas como disse acima, creio na capacidade do ser pensante (e sensível ao que pensa, da forma que for), e o leitor é processador, não criador. O leitor (eu e meio mundo) é re-criador. A beleza e funcionalidade da coisa estão aí, e, finalmente, espero ser considerado (ou compreendido) quando digo que nem a re-criação, nem a criação (que seria, aqui, criação?) são coisas limitadas, apesar de certa forma exclusivas de suas partes; a criação é um processo, um caminho, que naturalmente começa num ponto e paga seu pedágio noutro – e está implícito seu não-retorno ao ponto original da mesma forma como deste foi-se. E esta condição não impede interseções.

Considerar este tipo de coisa é especialmente estranho ou frustrante quando em falarmos de poesia. Nestas universidades. Nesta cidade. Neste país. Poucas mentes veem a coisa de forma holística. A força do texto poético carrega uma filosofia e uma consciência do mundo (onde quer que esteja localizado) que muitas vezes um romance ou um conto não alcançam. Vejo por este viés uma das razões da sobrevivência da poesia. S-O-B-R-E-V-I-V-Ê-N-C-I-A. Não que creia que ela morrerá, mas como os famintos de África, vão-se alguns; outros aparecem. Neste caso, a poesia ajudaria a sensibilizar a coletividade, mas, nem preciso dizer que, quem viabiliza as coisas nestas civilizações civilizadas não é o poema ou o poeta, e claro, a política. Vejam porque a poesia social é uma das formas mais fáceis dum poeta se queimar. É necessário ter consciência, e, se possível, engajamento físico para a mudança. No mais, se isto não faz parte de sua personalidade ativa ou passiva, reconheça sua condição. Os rótulos e as exigências são outra maneira de controle, e falo aqui especialmente do tipo de controle anímico, e que, vai saber, deve ser atávico em alguns. Circulando, se lembram do dito ‘cortar o mal pela raiz’? Seja bem ou mal, alternativo ou capitalista, a raiz é permitir à sensibilidade tornar-se física, ou pelo menos visível às relações entre humanos-humanos e humanos-coisas.

Finalmente, quero lembrar que existem duas espécies de hermetismo em poesia: o da linguagem e o do couro de quem escreve. Ambos criam barreiras, mas as Guerras Mundiais, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque nos mostraram que nada neste mundo ainda é intransponível. É uma questão de relativização e sensibilidade. De quem ataca e de quem é atacado. Daí haver vencedores/perdedores, sobreviventes/mortos, e as possíveis combinações entre estes elementos. A recepção é muito vária. Os escritores, tão quanto. A ditadura das personalidades leitoras, escritoras e consumidoras existe, mas como quando coerentes sabemos, este tipo de situação causa mais que preconceito e confusão, causa intolerância. Uma das causas do distanciamento do público-leitor da poesia foi o hermetismo, o desafio, às vezes, desmedido contra a lucidez. A lucidez não necessariamente quer dizer objetividade, e objetividade muitas vezes é confundida com síntese da síntese. Mesmo assim, não me atrevo ainda a levantar bandeira quanto a isto, pois acho que minha condição de Artista e missão como Poeta é de certa forma maior que isto. Ossos do ofício. Condições do amadurecimento – sempre possível e presente. O hermetismo de fato inútil ao ser humano, como espero que tenhamos percebido, é o hermetismo do espírito.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

discurso

1.

Tenho a certeza tranquila de quem não sabe o que fazer. Tenho a garantia de quem assume. E o sulco que circunda o que deste indivíduo é poesia foi cavado da mesma maneira. Às voltas com ninguém, mais uma vez me encontro carente de esclarecer coisas sob a luz do Sol, luz que chama a cabeça, mas quando vista estoura os olhos. E ficamos por aqui mesmo? Talvez.

Arrisco-me a dizer que a poesia é uma matéria equacionada. Ao seu modo, mas equacionada, digo, com palavras, mais ainda, com lexias, diria Barthes, por mim corroborado. Em seu ritmo, uma vez que não necessariamente uma comparação leve à precisa linha de seu exemplo. É uma visão metonímica, mas que de algum modo funciona. Quero chegar à questão de que enxergamos o objetivismo classicamente, e que as mudanças residem primeiramente numa inconformidade, numa incongruência, aqui mesmo, na cachola.

Com relação ao objetivismo que já foi clássico, lembremos que a objetividade é uma face disponível a tudo, seja você louco ou não. Quero dizer que nem só de épicos vive o homem, e a fragmentação muitas vezes proposta em poesia é versão desta visão de objetivismo. São partes que, assim como o todo duma obra ou projeto, comunicam uma equação com muitos parênteses, alguns colchetes e infinitas potências que pedem por resolução. Acontece que estamos acostumados, creio eu, que as palavras tudo digam, mas, provavelmente nos deparamos com um quebra-cabeça, uma peça dele ao menos.

2.
Poesia.
Onde?
Aqui mesmo: homem que grita para vender picolé, moça que confessa a outra num ônibus cheio quão safado seu namorado é e mesmo assim o ama, motorista que confabula com o cobrador sobre passarinhos de gaiola, a tentativa de dizer a verdade sem doer na alma de quem ouve, canção ouvida e não compartilhada, uma formiga carregando uma pétala, o gracejo na mesa entre cervejas, a piada #fail, o comentário feito após o filme, a ânsia confessada ao espelho, o olhar que disse tudo, as palavras que não cumpriram sua nascença.
Poesia. Onde? Aqui mesmo?
Claramente aqui, onde se pode imaginar uma viagem a um planeta de carbono enquanto se tropeça na calçada quebrada; aqui de verdade, onde quem sabe, há alguém que nada diga nem precise dizer ou não o quer, porque os discursos que esperam o mundo foram abortados e, atávicos, ocorrerão na falta da sétima geração; neste espaço cheio de fotos e beatbox onde se encontram os carros e seus cérebros; por ali, na falta de uma onda que ressoe em nossos ocos; exata localização na consciência binária de um homem grande com braços largos para abraçar o asteróide que o decepará.





sexta-feira, 27 de maio de 2011

confissão

Minha existência é preocupada com a ordem social da mesma maneira que um náutilo. A mesma coragem que me é necessária a confessar minha abulia é fundamental no entendimento de minha condição de sardinha que não imagina ser pescada, nem considera a metafísica das latas...

A ordem social, os sindicatos, os eleitores e os susseranos residem na mesma religião; e eu necessitaria duma conversão epidêmica para considerar a verdade. Entretanto é mister lembrar que 1. se a verdade é visível, talvez não seja sexualizavél, e 2. provavelmente ela (caso pese) se encosta na primeira esquina do Cosmo, aguardando um primo do Hubble para a compreta a R$ 100.

Verdade é que nem uma física ao contrário nos livraria da opressão, do condicionamento, da apatia, do crime. Eu mesmo não estaria aqui se não fosse pelas perdas. Um mundo nos conformes é algo que a matéria não permitiria.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

back and forth

ACHTUNG: ESTE POST DEVERIA TER SIDO POSTADO EM MARÇO... TERIA QUE VOLTAR NO TEMPO E RESOLVER ISTO, E ASSIM O FAÇO AGORA.

Bem, com um ano de atraso posto aqui meu primeiro mérito oficial, o primeiro reconhecimento em livro ever. Posto-o um ano somente, creio, devido à mudança de postura com relação ao meu fazer poético durante este mesmo período. Quando era mais verde, queria porque queria ser reconhecido, o que quer que eu fizesse poeticamente.... Quando, talvez através de algumas atitudes externas que não deleitaram minha personalidade, percebi que por mais que fosse novo e inédito, a atividade poética demandava uma energia que algumas vezes me deixava triste, outras consternado, alegre ou irritadiço. Coisa de um ano e pouco, minha vida como dito 'poeta' começou a se questionar... e a resolução caiu como uma manga em minha cabeça. Por que o faço? Para que? Quando fazer? Minha ingenuidade convinha muito bem à minha falta de propósitos.

Acontece que o ser humano (logo, sapiens) que usa instrumentos poéticos não o faz por nada e do nada. A Arte é muita coisa, como já tentei dizer no post anterior. Entretenimento, manifesto, compartilhamento, fuga ou nada mais... Hoje tenho, especialmente a poesia, na conta dos gestos que procuram contatos com outros gestos; o que é poético é um processo, como uma conversa, um beijo, e obviamente, um olhar e uma busca. Discorrer sobre o que é o poético (principalmente no escrito) num mundo como o nosso – e para que praticá-lo ainda – é algo fácil e difícil, por isso um fulano ou outro soltar que poesia é 'dizer o indizível'... O indizível é totalmente possível de ser dito, portanto, creio que não-ditos não sobreviveriam aqui... Um vez dito está dito, assim o indizível talvez nem exista... Poesia é revelação de perspectivas, de sonhos e déjà-vus à doppelgangers e paranoia.

Voltando ao poema, a recepção por parte dos pares foi morna, aí, percebi aquelas perguntas em minha mente cheia de pronomes relativos. Uma possível resposta estivesse talvez antes dessas relativizações, estava na natureza do texto participante da antologia (que você pode conferir melhores detalhes e razões aqui). Primeiramente, trata-se de um texto diferente da pessoalidade autoral que venho construindo em meus poemas. A proposta foi algo mais amplo, que alcançasse uma mensagem universal mesmo. O tema da edição que participei é 'Luce/Ombre' (Luz/Sombras). A delimitação de tema não foi problema algum para mim, uma vez que me certifiquei que era hábil e entregue o suficiente à minha intuição e sensibilidade, o que permitiu que construisse um poema meu e ao mundo, ao mesmo tempo.    
                                                    
Participar deste projeto foi algo muito interessante do ponto de vista pessoal, uma vez que havia intenções na pluralidade de vozes presentes na antologia. Vozes do mundo inteiro, a constar. Todos estavam discursando sobre destinos e realidades, não somente prezando um valor individual ou unicamente ligado ao poético itself. Serviu-me então esta experiência, em mais de que somente me dar algum destaque, mas essencialmente em provocar uma reflexão dupla: sobre o mundo e o eu (eu-poeta, digamos).

Fosse antes, estaria muito preocupado em agradar a qualquer um que por ventura o lesse, e quisesse comparar com meus temas pessoais e formas usuais. Não, não me preocupo. Nem com alguns ritmos óbvios (outros, nem um pouco) que aparecem no poema. Gosto da novidade quando me convém, quem tem problema com forma é sonetista e com tema é clássico. Como artista, creio que a única exigência que um público pode fazer a mim ou a qualquer outro artista, seja um escritor ou um DJ, é que não nos acomodemos, e que nos sintamos prontos a assimilar outras estratégias que renovem as vistas. De resto, o poema foi julgado (e quase ganhou o primeiro lugar, como fiquei sabendo depois) e disponível a todos aqueles que conseguirem se entregar à sua mensagem, à sua busca, ao seu estar. Ei-lo:

Mundos

Presumo além do clarão desta folha qualquer
forma que alivie — sem eu dizer sem eu pensar
— a Canaã que busco a prazo,
vontade além dos desertos de frio escuro,
aos bancos de areia tudo resumo: o mundo.

Chamem o tempo além do vento,
que tudo já é levado ao outro lado do dia:
a esperança sem padrão nesta terra, seus bens
compostos, estendidos na ilusão duma mentira
que é a não-razão de toda verdade extinta.

Que suster, que inventar, para qualquer
motivo que não lembre palmeira ou mar?
Profundamente na revelação desta fraqueza
aqui palavra se esconde inquieta a noite inteira,
expectante em sua memória de luz extrassolar.

O poema, aqui, em português, neste blog, é meio que exclusivo, uma vez que na antologia está em italiano com sua versão inglesa. Ele é uma lembrança que deixo a vocês, querendo somente receber como paga a consciência de que, quando algo é escrito em vão, que o seja totalmente propositado. 


domingo, 8 de maio de 2011

leaving

A estória dos anéis e dos dedos... Tanta coisa buscamos que não nos
perguntamos: por que não deixá-lo ir? Fica claro, nem tudo dorme no
controle. A estória dos anéis. Dedos que sempre buscam.

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Enviada a partir do meu dispositivo móvel

Sebastião Ribeiro

quarta-feira, 4 de maio de 2011

cinco minutos

não ando morto. só não me percebo.
não ando calado. há meu lábio de fumaça.
não ando a todo a mim.

                                    só estou aqui.
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