quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Outro


The Girl at the Window (1894) by Edvard Munch.

 

Até onde enxergo e toco 

sou o dia sem novas que 

dorme sem vontade em ser 

mais um de repente


entre moço e velho 

admito a cegueira, a mudez 

pus rédeas lassas na canção 

que paira os dias vis 


o perfume do fogo

hoje esqueci 


reencarnado ou reincidido 

ofereço o acaso que é o corpo 

ao excesso, à negação do início 


Bartebly 

no espelho 

murmura algo sem solução


Aqui 

me convenço da insistência 

ainda que perdido estava 

quando explicaram o ornitorrinco


como que levado pelo espaço 

me encontro reentrando em medo 

me dobrando numa fita de Möbius


como que levado pelo espaço 

insisto 

ainda que minguante 

em palavras tachadas 

                                   insisto



(in: RIBEIRO, Sebastião. Outro. Guaratinguetá - SP: Editora Penalux, 2022)

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

(im)preciso

 


É possível que a fruta no mercado

expresse mais que meus silogismos contados;

que a pedra satisfeita em sua ideia de simetria

entenda mais das poucas perfeições

e dos espelhos que as geram,

que eu,

certo de não existirem linhas tortas

para toda minha razão.


Os gnus, as raposas e os gafanhotos

confortam o correto peso de uma expectativa

que não me pertence mais,

uma vez que entendo de palavras

se achando moscas,

entendo de cores explodindo,

de anulações, de álcool,

mas, a respeito do que se deseja

(ou se precisa em forma de água doce

ou tubérculo – mais do que deseja

o gnu, a raposa, o gafanhoto)

me entendo feito o pasto

para um capim insistente.


in RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Sud pralad



Adentro os dentes do ganho 
correm mornas as perdas 

teu ultimato em silêncio convida 
a me entregar às tempestades 

a penetrar as selvas da cautela 
lamber os olhos de meu ladrão 

natural que eu tenha medo 


in: RIBEIRO, Sebastião. Outro. Guaratinguetá - SP: Penalux, 2022



terça-feira, 29 de março de 2022

Suspensão (para Carvalho Júnior, in memoriam)

 

Henri Rousseau's Virgin Forest with Sunset (1910) 


Não mais

teu cumprimento forte

teu abraço de irmão

tronco que sussurra

eternidades


Não mais

a canção do teu timbre

o riso que nos buscava

telepático voador de

quem brinca nas árvores


Não mais

tua busca tua entrega

que sabíamos nos unia

nos segurava entre

a alegria nos bares

e o palato dos imundos


Não mais

teu correr de menino

extasiado pelo brilho

nas folhas

transbordando em dentes


ainda que agora

sejas ar

todos vemos teus pés

na argila insistente

das margens do rio


© Sebastião Ribeiro, 2021



terça-feira, 20 de outubro de 2020

30

 



    Je suis esclave de mon baptême

            (Arthur Rimbaud)


Pós-chuva

um rastro de beldroegas

pelo bairro que atravessa

o corpo


alguns governos nos levaram

tanto mas não a eterna caça

garras que arranham o self


feito de ledo encanto só

entendo ultimatos no agora


festins fajutos no retrato

que percebo no espelho sujo

de pasta de dente


o alçapão na página permite

um fio de sol derreter minha

suspensa presença


sigo tido sobre anos usados

que insistem ser visagem

na xícara de café


um gole quente me

pressuriza os olhos

aqui sei

fundido

caibo num balde


ferido

ainda há uma rua

mesmo que

por baixo da casa


há incêndios no

peito e no espaço

indagando meus

taquicar

dias


                                                      RIBEIRO, Sebastião. Memento. Guaratinguetá - SP: Editora Penalux, 2020.


domingo, 4 de outubro de 2020

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