#1: José Paulo Paes - Como armar um presépio
| The Girl at the Window (1894) by Edvard Munch. |
Até onde enxergo e toco
sou o dia sem novas que
dorme sem vontade em ser
mais um de repente
entre moço e velho
admito a cegueira, a mudez
pus rédeas lassas na canção
que paira os dias vis
o perfume do fogo
hoje esqueci
reencarnado ou reincidido
ofereço o acaso que é o corpo
ao excesso, à negação do início
Bartebly
no espelho
murmura algo sem solução
Aqui
me convenço da insistência
ainda que perdido estava
quando explicaram o ornitorrinco
como que levado pelo espaço
me encontro reentrando em medo
me dobrando numa fita de Möbius
como que levado pelo espaço
insisto
ainda que minguante
em palavras tachadas
insisto
É possível que a fruta no mercado
expresse mais que meus silogismos contados;
que a pedra satisfeita em sua ideia de simetria
entenda mais das poucas perfeições
e dos espelhos que as geram,
que eu,
certo de não existirem linhas tortas
para toda minha razão.
Os gnus, as raposas e os gafanhotos
confortam o correto peso de uma expectativa
que não me pertence mais,
uma vez que entendo de palavras
se achando moscas,
entendo de cores explodindo,
de anulações, de álcool,
mas, a respeito do que se deseja
(ou se precisa em forma de água doce
ou tubérculo – mais do que deseja
o gnu, a raposa, o gafanhoto)
me entendo feito o pasto
para um capim insistente.
in RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015
Não mais
teu cumprimento forte
teu abraço de irmão
tronco que sussurra
eternidades
Não mais
a canção do teu timbre
o riso que nos buscava
telepático voador de
quem brinca nas árvores
Não mais
tua busca tua entrega
que sabíamos nos unia
nos segurava entre
a alegria nos bares
e o palato dos imundos
Não mais
teu correr de menino
extasiado pelo brilho
nas folhas
transbordando em dentes
– ainda que agora
sejas ar
todos vemos teus pés
na argila insistente
das margens do rio
© Sebastião Ribeiro, 2021
Je suis esclave de mon baptême
(Arthur Rimbaud)
Pós-chuva
um rastro de beldroegas
pelo bairro que atravessa
o corpo
alguns governos nos levaram
tanto mas não a eterna caça
garras que arranham o self
feito de ledo encanto só
entendo ultimatos no agora
festins fajutos no retrato
que percebo no espelho sujo
de pasta de dente
o alçapão na página permite
um fio de sol derreter minha
suspensa presença
sigo tido sobre anos usados
que insistem ser visagem
na xícara de café
um gole quente me
pressuriza os olhos
aqui sei
fundido
caibo num balde
ferido
ainda há uma rua
mesmo que
por baixo da casa
há incêndios no
peito e no espaço
indagando meus
taquicar
dias
RIBEIRO, Sebastião. Memento. Guaratinguetá - SP: Editora Penalux, 2020.
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