sexta-feira, 1 de maio de 2020

O que dizer do Sr. Ribeiro e de seu novo livro?, por Weslley S S Costa*




Sebastião, à época de universidade, em que com ele estudávamos (eu e o poeta Igor Pablo Dutra), já escrevia e nos incentivou amplamente. Quando queríamos escrever, ele já o fazia há anos… Mas os anos passam e Sebastião Ribeiro, hora, corre rumo a uma nova empreitada literária. 

Sebá tem sua voz própria; é um dos poetas mais habilidosos que conheço (estilisticamente). No transcorrer dos dias desenvolveu muita técnica e tem vasto léxico; ele consegue tecer belas imagens tanto quanto um simbolista ou um surrealista francês faria, mas no sentimento em seus versos tem apresentado algo mais ao estilo expressionista. Ele sabe que existe dureza, corrupção e desamor, pois “(...) o mundo todo jaz no maligno.” 

O Sr. Ribeiro fala sobre como é viver em um “país de terceiro mundo” e estar espremido em ônibus lotados; fala em estar triste e ter a “vontade de cantar”, mas nunca “alcançar a nota”.
  
Para adentrar na riqueza de sentido da palavra colocada por Sebá, eu diria: quantos estudantes buscam a nota maior competindo por uma vaga em um concurso? Mas nem todos alcançam. Quantos querem ser notados pela mulher amada? (“Tudo tem o seu tempo determinado (...)”. Quantas anotações certeiras procuram jornalistas, compositores, poetas e publicitários? Quantos desempregados em São Paulo e em todos os estados buscam aquelas notas coloridas que poderiam ajudar a levar mais conforto a suas famílias? 

Sebá sabe que a realidade pode ter suas circunstâncias desagradáveis e discorre a respeito delas (sim, é preciso ser cidadão consciente de que nem tudo está certo mesmo; é estético e compreensível, de algum modo, tratar das coisas belas. Porém, pessoalmente, causar-me-ia estranheza morar em um país com altos índices de corrupção, criminalidade e violência e ver ainda tantos livros “atuais” de poemas que se limitassem, totalmente, a temas cotidianos, paixão & beleza). Por outro lado, em meio aos dias em que muitos entraram em depressão, é importante acrescentar que é necessário ser um “realista esperançoso” tendo a fé firmada n’Ele para não se estraçalhar diante da dor. 

Sobre o poema Passado 

Em “Anos e dias/ do lado de fora” o eu-poético, dentro desses versos, mostra sentir-se excluído. 

“este portão à frente/ é um escudo” é uma das imagens, que considero, mais lindas do poema. Lembra-me os portões das históricas cidades muradas ou dos castelos medievais com seus portões-pontes (pontes levadiças) fazendo separação entre quem podia ou não entrar. 

Esses versos recordam-me ainda a passagem Bíblica em que o muro de Jericó veio abaixo (bem como, mais recentemente, o caso do muro de Berlim), em um contexto em que a cidade estivera “rigorosamente fechada”, & que, portanto, “ninguém saía nem entrava.” Quantos de nós como o eu do poema, em determinados momentos, nos vemos excluídos (na prática, do lado de fora das boas oportunidades; e não quero falar aqui de dinheiro, mas em se sentir do lado de fora “da vida em abundância”)? Mas quero lembrar-vos que a reviravolta é possível.

“sapateio nas memórias” traz três palavras & muitos possíveis sentidos (cutucado por esses versos, quero mencionar que cogito a possibilidade de escrever um livro sobre poética, semântica e estilística). Notemos, por exemplo, que o poeta ao colocar as palavras no texto pode aplicar termos mais ligados aos sentimentos (saudade, indiferença, querida etc.) e lexias mais “visualizáveis” e “tangíveis” (carro, vidraça, portão...), bem como, palavras, combinações de impacto (estraçalhar, pancada seca, explosão, gritante) e outras categorias de sentido/efeito. “sapateio” é um exemplo de um termo que confere dinamismo ao verso, pois é uma ação e tem força visual (devido a apontar para uma lexia “visualizável” em seu radical: o termo sapato). Esse é um estímulo que pode induzir a imaginação do leitor a trabalhar: se sapateia em qual velocidade/ritmo o faz (flamenco, samba sapateado, rhythm jazz tap?)? O eu-poemático dança/ se movimenta em uma tentativa de se aquecer para fora do frio das memórias tristes (trying “to dance the tears away”) ou pelos passos da dança fica a REMOER dores passadas? Se usa sapatos qual a cor deles? 

Houve aperto e dores (e o passado se foi) e o eu-poético, como é natural do ser humano, parece buscar conforto e alegria: “de todos/ os passos em dia/ além capitulo a uma/ espécie de abraço”. Ademais, o poeta observador do que está em sua volta, com algum tipo de senso de humor finaliza o poema “aforismos em/ sachês de açúcar”. Este é um “flash”, registro de uma curiosa cena do cotidiano: as concisas frases contendo pensamentos presentes em determinada marca de açúcar; Nem tudo nesta vida é dor e amargura e nem toda doçura faz bem. É preciso tomar/ser a escolha certa.

* * *

*Weslley S S Costa é poeta, membro da Academia Vargem-grandense de Letras, componente de Acorde (Scortecci, 2011) e autor de Colham as roupas maduras do varal (Scortecci, 2014). 

terça-feira, 14 de abril de 2020

test(amento)emunho



Concluo
o coração está cheio de pensar

nas mãos parece imbricado
no arbusto invisível
fundos duma casa de taipa

para sempre lhe haverá
cobradores prontos a negar
rios de cólera e excretas
em cada homem de pé – em defesa
da base aliada sistema financeiro internacional
e do asteroide insano que não irá nos fritar

se deixo além de suspensões
é um mistério pela metade

Imagem de irenesanet editada por mim em PHOTOMOSH


deixei um teorema violento
e tonitruante a jean franko
e numa caixa
faltas fugindo do tiroteio
to bobby kendall

pela distância de um olhar bêbado
há gotas de dracena me indicando o nife

é possível que encontrem
um armarinho inteiro nas valas cavadas aqui
por esse descontente/indignado alfabetizado

no resto do tacho
me assombra a alegria pentelha
que desonra descontrola e acende
me estica os braços me põe na cama

finalmente
direi do planeta mais próximo
em mim tudo se fumou
sublime autocombustão

RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017

segunda-feira, 30 de março de 2020

the wayfarer,... / o viajante,... [Stephen Crane]


Imagem de LoggaWiggler editada por mim em PHOTOMOSH


O viajante,
Avistando o caminho para a verdade,
Foi atingido pelo espanto.
O caminho foi tomado pelo mato.
"Ah", disse ele,
“Vejo que nada passa por aqui
há muito tempo."
Logo depois, viu que cada erva ali
Era uma lâmina peculiar.
"Bem", murmurou enfim,
"Sem dúvida, existem outros rumos."

***
The wayfarer,
Perceiving the pathway to truth,
Was struck with astonishment.
It was thickly grown with weeds.
“Ha,” he said,
“I see that none has passed here
“In a long time.”
Later he saw that each weed
Was a singular knife.
“Well,” he mumbled at last,
“Doubtless there are other roads.”


CRANE, Stephen. The wayfarer,... in War is kind. The Project Gutenberg, outubro de 2011. Disponível em: http://www.gutenberg.org/files/9870/9870-h/9870-h.htm


Conheça mais do autor aqui e here.

segunda-feira, 16 de março de 2020

fins*


Imagem de carloyuen editada por mim em photomosh.com


                                                                 para P.

Espelho em vista fosca
nossos ombros se desfazem
todas as sombras acenam adeus

o céu manchado de óleo me
renuncia mea-culpas coletadas
entre troncos no passado

fui arrancado de qualquer coisa
insuspeita no gesto-vinheta do
grito: 1⁄2 lamúria 1⁄2 crença

— essa biana na lonjura
leva bichos da água incauta
que não conhece adormecer


                                                                                (RIBEIRO, Sebastião. Memento. no prelo, 2020)


*esse e outros poemas podem ser lidos em Mallamargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

pedágio


Imagem de skeeze, editada por mim no PHOTOMOSH


são dedos que na palma
ciscam, separam para o norte
o troco do tempo

– mar encoberto de gravidade
que cruzo em ritmo de náutilo

o que quer que me alcance
tem contorno de presa fácil,
destino em me ser quando
não mais serei e

avanço
até que’u me seja o
tudo que preciso no fim




                                                                          RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

calopsia


Imagem de Horacio Lozada por Pixabay, modificada com PHOTOMOSH

o que somos nós hein

por dentro já quebrei os pratos
mas

escolhemos
o rosé evaporado em nossos olhos

esqueci das panarizes e do aluguel

preferimos duelar pela multidão
embora nosso peito esteja vazio

eu te vejo e me vem a vontade
de mastigar-me a cabeça
fugir deste teu abraço que

não sei se é
comercial de carro
ou plano de saúde

quando percebo que todos querem
ver nosso jogo de palavras
penso

(o caralho que vão)

pois aqui do lado
nessa vala brilhante
o esgoto desliza e delineia

o que não é o silêncio
o que nunca dirás
o que voltará como clichê
nalgum funeral

tudo se resumirá a

fuga

                                                                           RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015.

sábado, 7 de dezembro de 2019

doppelgänger





Estaria satisfeito
bilocado
assistido pelo inverso
interior desdobrado?

Onde está o som
de seus passos?

Corre serpente
carcomendo-me abraços
liquefeito absorto
me revivendo o salto

porém me agulha
me formiga
colhe o perfeito tempo
velho bom um
bom malévolo

Em seus bolsos
as pedras que sonho
quem sabe se aluga
na alheia coragem

desvia o olhar
arranca-lhes a capa

Seria ele
feitor das faltas
moço que sangra
se arrasta
seria ele a barca

Quem sabe
há uma lenda:
deito em seus olhos
finjo não estar aqui

RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017

domingo, 3 de novembro de 2019

provisório



um motivo não tenho pronto
nem palavra calma que circunde
o que não é este espaço
desinteressante
e o que dele espera
algo do espaço e
afinal
de que espaço falamos?

gritos tenho alguns e mesmo que
cheguem até o outro lado da matéria
pouco dirão

alguns esperam daqui algo como
                                         ‘barco feroz
                          em cabeleira azul’
             ou
     ‘tessitura molhada
                     duma alma’
mas
...

o poema consome parte do tempo
que me faria pegar um lotado menos cheio
o poema consome o homem abatido
queimando seu espírito fora do prazo de validade

sim
o homem é a fruta podre que nutre
a árvore sob o sol desfigurante

o homem em tudo que se conhece sou eu
que procura outros homens numa dúzia de maneiras tristes

maneiras que me pedem uma casa com plantas sem
                                                                            metáfora
em seu terraço e mato surgido debaixo do concreto
                                                                            bocejando
uma flor de cor aparentemente eterna

vejam pois que o escrito e os ossos que o
imprimem são um algo só
precisos & parados
num ou outro instante do dia

enfim
somos uma erva que índios evitam

                                                                                                               RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

mimo



Isso ou aquilo no
que é possível
igual o troco pouco
no bolso

exige riscos de balé
atordoado
esperar que sejas o
sabão de erva-doce no
banheiro do shopping
ou que percebas meus
sapatos vermelhos

talvez seja muito
em torno de minha
ingratidão –
rebelde iconoclasta
com rendimentos de 0,69%

niilistamente vivo
funcionário público
quase cristão

esmero essa liberdade tola
que me arranca dos saltos
porém quanto de meu impulso
te importa? entrego a questão
para o porrilhão de deuses
amaciados no travesseiro
de viscoelástico

eu
sendo a cortesã que veste
a saia de flamboyant
natural que acabe por me vencer
assolando o mundo em chamas

retornar dessa carraspana
com pérolas e cinzas na língua

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)

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