Se existissem dores atrás de meus olhos eu saberia, mas com um pouco dessa noção ele apareceu para mim em sonho. Quase certo da distância de minha certeza, ele nem imagina (lá onde as Ideias se encontram...) que mordi seu dedão quando oferecido, pois eu estava caído em seu peito num abraço de tepidez anestésica. É, o tive numa inconsciência, mas é claro que me refiro ao adormecer da realidade, não do eu. Tive a chance de cair em meu próprio erro com ternura. Ele? Está sentado em cima de sua barragem.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Louco
por
Sebastião Ribeiro
'Sad with what I have...' (Rufus Wainwright)
Escuro. Por aí da madrugada. Fuga de um ladrão. Inexistente. Inexistência maior, minhas fendas. Pálpebras em colapso. Borboletas todas asas visitando pelo menos uma vez agonia. Fugir. Eu, ainda não alar. Eu.
Vejamos. Minto. Vejo. Visto. Tenho visto. Vi.
Vejamos. Menino dedilhando teclas internas. Som imenso. Explosivo. Interno. Logo, sem juízo.
Menino. Não falte com a verdade. Menino.
Não mentir no escuro. Despojo. Sono. Conforto. Despojo.
Sono. Pegar um ônibus. Vida em monóxido. Querer no excesso. De gente. De nada. Querer. Sono.
Sono que me estica. Ali, além de tudo perto do shih! Ali. Sono.
Desonra. Queda. Criança. Retrocesso?
O silêncio de Rimbaud.
Vejamos. Minto. Vejo. Visto. Tenho visto. Vi.
Vejamos. Menino dedilhando teclas internas. Som imenso. Explosivo. Interno. Logo, sem juízo.
Menino. Não falte com a verdade. Menino.
Não mentir no escuro. Despojo. Sono. Conforto. Despojo.
Sono. Pegar um ônibus. Vida em monóxido. Querer no excesso. De gente. De nada. Querer. Sono.
Sono que me estica. Ali, além de tudo perto do shih! Ali. Sono.
Desonra. Queda. Criança. Retrocesso?
O silêncio de Rimbaud.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Mentira
por
Sebastião Ribeiro
estou ainda em mim
tanto na ciência dos dedos
quanto em suas falanges dúvidas
gritam então os olhos
cientes em parte que mente
o que veem sobra em promessa
quebro uma intenção do corpo
sua menção se submete a um delírio
em tudo que sobrevive na queda da boca
tanto na ciência dos dedos
quanto em suas falanges dúvidas
gritam então os olhos
cientes em parte que mente
o que veem sobra em promessa
quebro uma intenção do corpo
sua menção se submete a um delírio
em tudo que sobrevive na queda da boca
terça-feira, 18 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Aniversário
por
Sebastião Ribeiro
que'u não esqueça enquanto me houverem
ossos nem prestígio ao menos se houvesse
consciência nas palavras...
e foi isso a matéria de meu lapso
houvesse coragem... não não que não
houvesse nada naquele canto em que bebo
corre na cevada o gelado isolando minha
voz na existência de tanto mundo circundante
houvesse espaço em que'u ganhasse saídas não
não mereço os olhos pesados é que carregam
muita saída te aconselho a sair a dormir
eu sou lá fora meu grande desespero
ossos nem prestígio ao menos se houvesse
consciência nas palavras...
e foi isso a matéria de meu lapso
houvesse coragem... não não que não
houvesse nada naquele canto em que bebo
corre na cevada o gelado isolando minha
voz na existência de tanto mundo circundante
houvesse espaço em que'u ganhasse saídas não
não mereço os olhos pesados é que carregam
muita saída te aconselho a sair a dormir
eu sou lá fora meu grande desespero
terça-feira, 4 de maio de 2010
.....................
por
Sebastião Ribeiro
Considerando:
- falta de convivência prática; prática de silêncios;
- fuga do acaso; acaso meus poemas fogem;
- na falta permanecem alguns textos; alguns textos permanecem faltosos;
- dentro de mim nada salva da ânsia; nada salva a ânsia de dentro de mim;
- guardo um soco de tristeza; soco a tristeza;
- ninguém sobrevive palavra insistente; na insistência do ninguém sobrevivo;
- sempre dúvidas; duvido do sempre;
- quantos guardam as palavras?; as palavras (filhas da puta) guardam a todos vocês;
- minha cabeça sem a 'minha' retém uma nuvem de tags; uma nuvem de tags sem a cabeça, não seria 'minha';
- nunca estive bem, quem o quisera? quisera eu estar bem no nunca;
- digam-me tudo, recolham, embalem; recolham o tudo, diga-me se ele vem embalado.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Pelo dito hermetismo IV ou O Prazer
por
Sebastião Ribeiro
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
(...)
(Carlos Drummond de Andrade - O Lutador)
Hoje, acumulo a memória ligeiramente puída e desconcertada dos poemas que vão e vem, às vezes sequer respingando sua dobrada memória. Como o pissing, que exige uma especialidade ao paladar, a poesia de todos os tempos exige mãos certas ao seu gosto. A variedade de estilos e formas, temáticas e imagens é imensa. Geralmente, por falta de educação (ou por falta de paixão...), em nossos corpos não existem enzimas capazes de ir além da mímesis; por aproximação ao mal informado que creio ainda estar levantado, digo que isto é uma questão em latim, também, querido: imitatio. Lembra? Prossigamos.
Aqui, ainda sobre a historicidade individual em minha memória poemática ligeiramente puída, conjeturo reavaliar o estado de morte ao qual os textos e poéticas novíssimos que surgem estão. Eu, claro, incluso aqui. Explicando, o estado de morte ao qual me refiro é a recepção dolorosa. Essencial que os leitores, profissionais ou não, esqueçam a política do ócio, pois que a poesia é de fato, meio de conhecimento. Aos antigos era didática, aos modernos, catártica, salvo absolutismos. O meio de conhecimento existe inclusive como a substância empírica do prazer. O que sustenta leitores, críticos, estudos, cursos, nomes: prazer.
Por que o texto em circunstâncias contemporâneas adquire aquela dor indiagnosticável? A convenção já não responde às circunstâncias. Realmente, o que está doendo e se remói em convulsão lírica, vocabular ou frástica (queridos leitores inocentes, levem minha mensagem), é fundamentalmente a mesma imitatio que não corresponderia primeiramente à tanto avanço ou ousadia, ainda que fuga. Mas é cada vez mais perceptível a consciência e a atividade da condição atemporal e primeva da poesia como objeto ou organismo linguageiro (até linguístico) existente na intersecção ou arredor da convenção da escrita. Profundamente guardaremos isso, não é?
Acrescento outro ponto: o classicismo ainda ilhado por alguns contemporâneos no cenário poético brasileiro atual reforça meu comentário parco: o culto à formas e temas tradicionais, reforça o desconhecimento de alguns não ousados receptores, porém encharca o fazer poético testemunhado do frêmito do prazer. É a forma antigamente nova de se bolinar a convenção... Totalmente, tudo é válido. Definindo neste canto de sala o que distingue o que é válido do bitolado e trivial, existe a musicalidade, a metáfora inusitada, o tema oculto, o orfismo esperançoso, e outras exigências que como tudo em poesia, atravessa os rios e o vento, reviram e engolem cidades, mas tudo voltará a um lugar são de intempéries. Registremos também a questão de 'olho'; bem, para isso um bom cabedal literário é indispensável.
Queridos a quem a curiosidade tocar, remarco o underground das questões óbvias: que fundamentalmente todo texto hermético é feito pra ser compreendido. Não, não estou subestimando sua inteligência; é que, como anteriormente resposto o conceito da condição inerente à poesia de passear por fora do reino, a unidade de hermetismo guarda sua liberdade de interpretação ou impressão, ainda sentimento. Guarda aparentemente tanto, que aceita o sexo de todas as chaves. Segundo, o poema, à vácuo ou em sacola de feira, é espelho de beleza. Essencialmente a do tipo indizível. Por enquanto é isso, por instinto, uma beleza que atrai, um prazer posterior.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Psiu!
por
Sebastião Ribeiro
Começo assim: do que falar iria, esqueci!
Entretanto...
Existe no pensamento alguma reminiscência sobre tradições poéticas, seus diálogos, sua conveniência... A beleza que os textos imemoriais seguram, às vezes, como enleios nas cabeças dos jovens poetas (you must sound like this to reach something...). Inegável que aquele toque de clareza profética nos textos 'clássicos' enchem nossa alma (a dos visados, viram?) de altura, de verdade, de armas. Sabemo-los certamente como fios condutores das unicidades humanas. Por isso são totêmicos.
Venho a considerar os 'grandes' neste post, por necessidade em adequá-los como existentes, compositores e fundamentadores, não somente de minha poética, mas óbvio, de toda uma contemporaneidade. É que, ainda numa realidade de perspectivas mal equilibradas (aquelas do Deus é quem sabe), tomo a grande parte dos meus textos, frequentemente, não tanto em seu sentido, mas em sua possibilidade, clareza e dúvida. Estamos deparados com uma situação mezzo abandono mezzo insegurança... Venho aqui a considerar que alguém (quem sabe eu?) tem de se convencer de que o rapaz que aqui fala não é um amador, menos ainda um iniciante.
Who cares? A recepção comum (diria, corriqueira?) são críticos, estudiosos, curiosos, leitores, simpatizantes, paliativos... Eis que revelo: são pessoas! Tratariam um poema dum novo como encarariam um novo lançamento de celular. Será? No mínimo, em parte. Quase em essência. E todo um pretenso e fetal projeto em concepção poética para a fuga do comum mas com estada no essencial derrete na própria lama do qual surge. Aborto. É, é isso... Passo (passamos) pelo aborto. Fail!
Este blog testemunha um meandro ou outro disto. Puxa, que eu não precisaria falar disso. É que de todo silêncio vem uma pista, e toda pista implica numa busca e boa parte das buscas gravam quedas. Esta palavra e a que virá daqui a pouco e a que estaciona feito preposição ou pronome relativo são aquela ponte que nunca deseja cair. A que testemunha os quatrocentos anos de qualquer coisa (isso existe?). Este espaço é um poeta de camisa aberta!
"a cabeça cheia de ar que se desfaz no túmulo de Pound"
domingo, 11 de abril de 2010
frame
por
Sebastião Ribeiro
buttons not working
are out of my vocabulary
fixing all his smiling impressions
surrendering my weak flesh that
aches without a little point
of his seedy light
are out of my vocabulary
fixing all his smiling impressions
surrendering my weak flesh that
aches without a little point
of his seedy light
quinta-feira, 8 de abril de 2010
LoveFail
por
Sebastião Ribeiro
Ofereço-me mais uma vez aqui a quem quiser me ferir.
Passam por esta cabeça convenções lúcidas em cada erro que viver impõe. Tipo, uma nova paixão. Apêndice dessa condição de perda é parte dum poema de Monika Rinck, zum fernbleiben der umarmung, ou " de abster-se dos abraços", que li há poucos dias no blog Modo de Usar & Co., na tradução de Ricardo Domeneck. Sintam:
você não queria morrer uma vez mais,
despistar-se da colisão era sua única chance.
(...)
como amar certa linha de cabelo num crânio, um traço
de perfume no pescoço, tudo se foi, não ficou, longe.
(...)
Trago esses erros de uma viagem ao Recife - PE. Durante o trajeto, pelo ônibus, no que o Claro me permitiu deduzir, considerei várias impressões: paredões de rocha, morros, verde e barro indelével. A cor do barro é absolutamente tocante. Me calei para o barro. Na cidade de fato, durante a estada, (re)conheci um homem essencialmente este barro imóvel na estrada.
De volta à minha São Luís, cheio de enleios, penso até agora em como pensar este homem num poema, já que pouco dele assumi e assimilei em minha corporalidade. Como paixão, não imagino aonde eu esteja. Então o que fazer? Me é especialmente permitido devanear na possibilidade de consumir essa verdade masculina na abstração. Entretanto isto não condiz com a realidade da matéria, notavelmente a humana, que grita como uma cigarra. Espero que vocês compreendam e considerem de alguma maneira essas indagações, não somente como um registro de um lovefail, mas na forma de mais uma maneira de amarmos a poesia. Em parte e sem compromisso, isso é o que imagino quando digo que 'quero pensá-lo num poema'. Num nível um tanto primário, mas faz parte. Outro parágrafo, por favor.
Venho pensando na religiosidade da poesia, no sentido do muitas vezes necessário desprendimento da materialidade, da vida frívola, da carne, enfim. Provavelmente por causa do arrebatamento, do mergulho inerente ao Orfismo. E na dificuldade de tomar aquele rapaz em meus braços como todo meu sistema pedia, acabo por dissolvê-lo num poema frio. De verdade, provavelmente, existem desvios em minha vida (vida de um poeta). Estamos cansados dos pássaros que escapam de nossas mãos, não?
De verdade, provavelmente, estruturalismos e críticismos à parte, nem sempre pensamos na molécula imensa e chorosa que é o humano por trás da poesia. Por trás da vida aparentemente silenciosa existem os poemas, que funcionam como olhos de um brilho considerado poesia. Aonde termina o ego do poeta e começa o ícone do artista, agora esculturado? Parece uma falha de cárater... Uma tristeza somente. My poetic illiteracy.
Assinar:
Postagens (Atom)