#10: Björk - Pagan Poetry
#11: e. e. cummings - since feeling is first
#12: Anne Sexton - The poet of ignorance
| The Girl at the Window (1894) by Edvard Munch. |
Até onde enxergo e toco
sou o dia sem novas que
dorme sem vontade em ser
mais um de repente
entre moço e velho
admito a cegueira, a mudez
pus rédeas lassas na canção
que paira os dias vis
o perfume do fogo
hoje esqueci
reencarnado ou reincidido
ofereço o acaso que é o corpo
ao excesso, à negação do início
Bartebly
no espelho
murmura algo sem solução
Aqui
me convenço da insistência
ainda que perdido estava
quando explicaram o ornitorrinco
como que levado pelo espaço
me encontro reentrando em medo
me dobrando numa fita de Möbius
como que levado pelo espaço
insisto
ainda que minguante
em palavras tachadas
insisto
É possível que a fruta no mercado
expresse mais que meus silogismos contados;
que a pedra satisfeita em sua ideia de simetria
entenda mais das poucas perfeições
e dos espelhos que as geram,
que eu,
certo de não existirem linhas tortas
para toda minha razão.
Os gnus, as raposas e os gafanhotos
confortam o correto peso de uma expectativa
que não me pertence mais,
uma vez que entendo de palavras
se achando moscas,
entendo de cores explodindo,
de anulações, de álcool,
mas, a respeito do que se deseja
(ou se precisa em forma de água doce
ou tubérculo – mais do que deseja
o gnu, a raposa, o gafanhoto)
me entendo feito o pasto
para um capim insistente.
in RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015
Não mais
teu cumprimento forte
teu abraço de irmão
tronco que sussurra
eternidades
Não mais
a canção do teu timbre
o riso que nos buscava
telepático voador de
quem brinca nas árvores
Não mais
tua busca tua entrega
que sabíamos nos unia
nos segurava entre
a alegria nos bares
e o palato dos imundos
Não mais
teu correr de menino
extasiado pelo brilho
nas folhas
transbordando em dentes
– ainda que agora
sejas ar
todos vemos teus pés
na argila insistente
das margens do rio
© Sebastião Ribeiro, 2021