terça-feira, 7 de setembro de 2010

cápsula do tempo

daqui a cem anos
entenderei-os anos-luz uma leve
modificação do que hoje sei voz


irei navegar no silêncio
dum vácuo brumoso serei
parte de muitos núcleos
tornarei-me roto


de tantos rostos em
várias coxas teci algo
que para os últimos
vou esperar um nada:
uma vida caída aqui no esterco
caminhará surda antimatéria


tome portanto meu caminho
me leve aqui mesmo além da
estrela que tua cala me draga
me oferece à falta de órbitas

sábado, 4 de setembro de 2010

O vício

Há um momento em que mesmo os vãos entre os dedos expiram o incerto. Sei que oferecido a muito posso não mais retornar. Sei que certas vezes me impossibilitam os atos, escrever por exemplo. Porque o vício vem de coisas que inspiram o silêncio, ou ele mesmo é coisa para calar, se não objeto que fecha. O vício é bipede e exige muito de mim.

Depois do uso, me exijo muito, às vezes, sem que verdadeiramente possa exigir. É que caio e não desejo que ninguém me junte. Por favor, me pise. Me subjugue, me alise. O que me enlouquece se fuma, cheira e vê. Posso tocar e fugir. Preciso ser muito de mim para fazer o que faço.

sábado, 7 de agosto de 2010

discovery

minha fé goteja própria à evaporação
dentro destes dias caídos me avisaram:
tenho um semblante tenho cara de alguma coisa
entretanto nada de luz ainda vejo
espero um primeiro sinal

muitas vezes o mais do que nunca sobrevive
aconselha: o silêncio já diz tudo
assim sendo não acanho o ignorar
ando e ouço as pessoas circundantes
ralhar com um santo

de repente minha vocação crônica
não passou de um espelho
como tal não fala em línguas
de uma vez confesso partes erradas
exatas do desejo caindo expressando
figuras que o reflexo não revela

sábado, 24 de julho de 2010

ontem

perfeitamente acurado
por isso me agrado de pisar em ovos
de vez em quando

com isso me espanto
nada de menos
só teu corpo invertido me pisando

estritamente perfeccionado
estando livremente aberto em regalos
espero nao te desesperes
às vezes a cor dos tijolos dissoa
feito teu rosto

agora arregalado pronto a me oferecer
tudo a isto dito eu cheio de escolhas
finalmente justificado
venho sabendo que nada me seduz mais
que uma sutil inconsequencia

segunda-feira, 5 de julho de 2010

reta

dum ponto a outro só digo
que nada escorre um conceito

da distância entre meu olho
e tua boca tudo luziu
menos uma reta
considero agora o que
foi estatura e força:
pode-se inventar um combate
onde já existem feridos?
esta mente dita minha nada
(carregada de palavras)
pousa além disto
eis que te ensino:
nada podes fazer contra
a sutura dos sistemas
nada rebate a horda que
senta à mesa de jantar
sinto que preciso de um livro
uma coxa de frango
meia alface
verdade somente a mesa
se encontra posta

nada hiberna no nexo
(serei eu louco
nexo sem calçadas?)
desde já muros sobrepõem-se
para tudo inclusive homens
nada te atingirás fora de mim
(com certo orgulho me enojo do
espelho – nele nada se vocaliza)
enquanto que tu aí estás
sentado salmodiando um corpo
ou outro aqui eu me entrego
à boda ou ligeiramente mesmo
às núpcias de quem não tem corpo
já nos inventam tantas batalhas
que enfim chega a hora:
afastas a razão não restará
ledor sobre sentido
ouvido over lido

sábado, 3 de julho de 2010

No one listens to poetry. The ocean / Does not mean to be listened to. (Jack Spicer)



síntese 

pequeno pio meu caído do mundo 
sopro totalmente incorporado 
de um não-toque 
presença ignóbil capitulando 
fortitude oriunda do que nego 

quero-o muito 
desejo num soluço tê-lo aberto 
considero sugá-lo lá pelas onze 
mas quem dera 
quem serve num prato seu trago fugidio 
quem me dirá aonde minto 

certamente não vivo 
congelo no escrito o badalo da proscrição 
um signo para o limbo 


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Esta postagem tem como título versos do famoso poema Thing Language, de Jack Spicer. Você pode conhecer melhor o poeta e ler este belo poema aqui:

terça-feira, 29 de junho de 2010

ocigàrrobrev (ou, "- Vamos carapuça, caiba!")

aos 
que não me lembram 
não me esperem 
não lembro 
sequer de esquecer 
quem 
anda esquecendo 


não espere nem 
lembre em esperar 
quem 
esquecendo lembra 
o que não espero 


lembre-se 
não esperar 
lembrando 
de esquecer

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Amor

Do nada, assim parece às vezes como entendo a vida. Fazendo parte das coisas enormes e presentes, viver é um óbvio que poucas vezes espera ser ouvido quando de um ônibus lotado, um atraso, um engarrafamento, um susto, uma obrigação. Muitos do lado de fora de mim nem imaginam, drenam meus braços entusiasmados, fazem-nos quebrantos de si mesmos. 

Haja agora poesia, haja arte que transporte... 

Razão emergente esta que agora surge, comum a todos os cegos, razão esta que não se mascara além de pura necessidade. Acreditamos na origem aristofanesca do amor, não neguemos. Alguns engordam, outros saturam os olhos mesmos. 

Haja invencionice, haja escape... 

Então me lembro do exato instante que usei a palavra touros querendo usá-la. Vai entender, mas foi perfeito. Verti-a do carinho que de mim algum humano não pôde conquistar. A língua é minha, senhores. Enquanto alguns querem, pedem ou compram corpos, eu os faço, eu os tenho, e hajam espelhos a definir o que é tudo isso. Fecho os olhos e me encontro. Meu reflexo não pertence à palavra, somente minha matéria. Assim, amo a tudo e a todos. 

Haja fuga, haja ausência na presença... 

E de absoluto, só o fim (que é amor...), quando dele se compraz o mundo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

#tonto

Ainda não sou um profundo, sequer consistente conhecedor da obra de Saramago, o que de certa forma me livra de muitos clichês, e principalmente de lamúrias póstumas, tão recorrentes no mundo literário. Ainda sou um ponto em relação a ele, isso é certo. Acontece meus senhores que um das maiores vozes da minha língua não mais está entre os vivos. Com sincera consternação, me encontro levemente atordoado. Como poeta, se assim me permito, constituo uma visão holística para muitas pessoas menos atentas... E como tal, me sinto preparado a tentar aqui expressar algum comentário sobre este acontecimento estranho à normalidade. Compartilho com Saramago uma essência primeira: a língua. É parecido com perder dinheiro. É um desses escritores que dão orgulho e coragem a muitos que escrevem. De fato permanecerá acordado e lúcido como sempre foi, feito uma necessária marca no mundo. 

Um mundo curado? Talvez uma doença silenciosa.
Adeus!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Constatação

avalie-me assim
insosso tosco
randômico

associe-me então
a um dia em que
não mais chova

sei que estás
imensamente calado
imensamente

se pudesse te
morderia os braços

mas não o farei pois
acredito que o amor é
uma coisa lucífera e

que está sempre em
cima de uma
cabeça vazia
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