sábado, 4 de maio de 2019

as if i am someone else / como se eu fosse outrem [Douglas Piccinnini]


tanto depende
da autoridade

duma realidade
para me guiar

na lógica
da circunstância –

viver confortavelmente
mas desejar diferente.


Imagem de  Colin Behrens, modificada com Photomosh

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so much depends
on the authority

of a reality
to guide me

in a logic
of circumstance —

to live comfortably
yet desire differently.



*mais do poeta AQUI (em inglês).


segunda-feira, 22 de abril de 2019

the suicide kid / o garoto suicida [Charles Bukowski]



Fui ao pior dos bares
esperando ser
morto.
mas só consegui
ficar bêbado
de novo.
pior, os donos do bar
acabaram foi
gostando de mim.
lá eu tentei ser
empurrado num canto
escuro
e acabei bebendo
de graça
enquanto por aí
algum filho da mãe
coitado estava num leito de
hospital,
tubos saindo dele
lutando
para viver.
ninguém me ajudaria a
morrer já que
a bebida continuava
vindo,
já que o amanhã
me esperava
com seus grampos de aço
seu anonimato
fétido,
sua atitude
descuidada.
a morte nem sempre
vem correndo
quando você
a chama,
nem mesmo se você
o faz
de um castelo
iluminado
ou de um transatlântico
ou do melhor bar
do mundo (ou
do pior).
tal impertinência
só faz os deuses
hesitarem e
protelarem.
pergunte-me: tenho
72.*

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I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn’t always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I’m
72.

*tradução minha de BUKOWSKI, Charles. the suicide kid in Slouching Towards Nirvana: New Poems. Harper Collins Publishers, 2005

Mais do autor aquiaqui.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

These poems/ Esses poemas [June Jordan]


Esses poemas
são coisas que faço
no escuro
para te alcançar
quem quer que sejas
e
estás pronto?

Esses poemas
são pedras na água
que corre

esses versos esqueléticos
são braços desesperados por minha ânsia e amor.

Eu sou um estranho
aprendendo a adorar os estranhos
ao meu redor

quem quer que sejas
quem quer que eu me torne.


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These poems
they are things that I do
in the dark
reaching for you
whoever you are
and
are you ready?

These words
they are stones in the water
running away

These skeletal lines
they are desperate arms for my longing and love.

I am a stranger
learning to worship the strangers
around me

whoever you are
whoever I may become.

June Jordan (1936 - 2002)

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Conheça mais sobre a autora em seu site oficial aqui (em inglês) e neste perfil do blog Escamandro, aqui (em português).


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

historieta / joke [Maggie Smith]



No que acho ser um sonho,
vejo uma manifestação do passado

& digo, sei que você não é real. Tenho que dizer.
Como a maioria das coisas de sonho, o passado

remodela-se, reconstitui-se com novos
olhos & novo penteado – o passado

transformado – & então esqueço seu nome.
Esqueço o que estou fazendo com ele.

Como é mesmo aquela historieta sobre o rio?
Não é assim, uma piada, não mais que o passado

seja mesmo passado – aquela sobre a água nunca
ser a mesma água. E ao passo que corre,

a corrente do rio – agora, isso sim é uma piada –
está sempre passando agora agora agora. Depois

das sete, quando acordo do que acho que
seja um sonho – sonho onde digo ao passado

a verdade sobre ele mesmo – ele é o presente
de sempre. Não há passado.



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Joke

In what I think is a dream,
I look at some manifestation of the past

& say, I know you’re not real. Someone has to.
As most dream-things do, the past

shapeshifts, reconstitutes itself with new
eyes & a new haircut—the past

made over—& then I forget its name.
I forget what I’m doing with the past.

What is that joke about the river?
It’s not really a joke, no more than the past

is really past—the one about water never
being the same water. As it flows past,

the river’s current—now that’s a joke—
is always flowing now, now, now. Past

seven, when I wake from what I think
is a dream—a dream where I tell the past

the truth about itself—it is the present
as it always is. There is no past.

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Conheça melhor a autora AQUI (en español) e AQUI (in English).


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

um livro de música / a book of music [Jack Spicer]


Chegando a um fim, os amantes
exaustos como se houvessem nadado. Onde
acabou? Não houve anúncio. Amor algum
é oceano de procissão tonteada no limite das ondas
onde os dois emergem exauridos, nem longo adeus
como a morte.
Chegando a um fim. Bem, eu diria, como a altura de
um rolo de corda
que não disfarça na ponta das tranças
seus fins.
Mas, você dirá, nós amamos
e algumas partes de nós amaram
e o resto de nós permanecerá
duas pessoas. Sim,
a poesia termina como uma corda.

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Coming at an end, the lovers
Are exhausted like two swimmers. Where
Did it end? There is no telling. No love is
Like an ocean with the dizzy procession of the waves’ boundaries
From which two can emerge exhausted, nor long goodbye
Like death.
Coming at an end. Rather, I would say, like a length
Of coiled rope
Which does not disguise in the final twists of its lengths
Its endings.
But, you will say, we loved
And some parts of us loved
And the rest of us will remain
Two persons. Yes,
Poetry ends like a rope.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

medo



à boca da cachoeira estão as palavras. o pesado silêncio está nos anos imensos dentro das pedras. o corpo dói prevendo a queda: d'água, abismada.

o mundo sorve meu riso pouco, o grito pequeno. sobrevoo micro-suficiências. oro feito uma folha velha pela sorte dos meus, por nossa vida.

momentos se acumulam sob explosões desentendidas. o peso do medo mastiga minhas costas. me equilibro entre o mergulhar e o sumir.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

escrever 2


PHOTOMOSH em foto de Craig Cooper on Unsplash

Luto contra ou por um temor. Se é perda, euforia, cegueira ou canibalismo, não consigo avaliar. Talvez seja tudo. E mais um pouco. 

Não desvio mais do silêncio. Porém, reflito: até quando dorme, até onde chega. De qual intenção é, para que, alguém ganhará algo disso?

Os dias pesam em meu estômago, não parecem nem alegria nem tristeza, nem aparente motivo (que se foda o poeta, Cecília.)... Os dias pesam no remodelo do futuro.

Os dias: eu os sorvo, os digo, não os conto.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

escrever



Escrever -- necessito. Mas sem acreditar no que vejo. Esperar os estalos sem surpresa. Correr de algo, sem esperança. 

Escrever como quem não desiste, mas aguarda. Como quem afasta, mas nutre. Que a vida não faça aquela curva que nos apresenta o precipício.

Escrever, mas como quem gora. Como quem se judia, se morde. Escrever como quem tropeça e vê que a pedra é o futuro e não será terra para vermes antes de nós.


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