terça-feira, 5 de setembro de 2017

the poet of ignorance/o poeta da ignorância



THE POET OF IGNORANCE

Perhaps the earth is floating,
I do not know.
Perhaps the stars are little paper cutups
made by some giant scissors,
I do not know.
Perhaps the moon is a frozen tear,
I do not know.
Perhaps God is only a deep voice
heard by the deaf,
I do not know.

Perhaps I am no one.
True, I have a body
and I cannot escape from it.
I would like to fly out of my head,
but that is out of the question.
It is written on the tablet of destiny
that I am stuck here in this human form.
That being the case
I would like to call attention to my problem.

There is an animal inside me,
clutching fast to my heart,
a huge crab.
The doctors of Boston
have thrown up their hands.
They have tried scalpels,
needles, poison gasses and the like.
The crab remains.
It is a great weight.
I try to forget it, go about my business,
cook the broccoli, open and shut books,
brush my teeth and tie my shoes.
I have tried prayer
but as I pray the crab grips harder
and the pain enlarges.

I had a dream once,
perhaps it was a dream,
that the crab was my ignorance of God.
But who am I to believe in dreams?

* * *



* * *

O POETA DA IGNORÂNCIA

Talvez a terra esteja flutuando,
não sei.
Talvez as estrelas sejam papel picadinho
por tesouras gigantes,
eu não sei.
Talvez a lua seja uma lágrima congelada,
não sei.
Talvez Deus seja apenas uma voz profunda
ouvida pelos surdos,
não sei.

Talvez eu seja ninguém.
Certo, tenho um corpo 
e não posso escapar dele.
Eu gostaria de sair de minha cabeça,
mas isso não vem ao caso.
Está escrito na tábula do destino 
que estou presa nessa forma humana.
Sendo esse o caso, 
gostaria de chamar atenção ao meu problema.

Há um bicho dentro de mim, 
se agarrando ávido ao meu coração, 
um enorme caranguejo.
Os médicos de Boston
lavaram suas mãos.
Tentaram bisturis, 
agulhas, venenos e afins.
O caranguejo permanece.
Um grande peso.
Tento esquecê-lo, fazendo minhas coisas,
cozinhando brócolis, abrindo e fechando livros,
escovando os dentes, amarrando os sapatos.
Tentei orações, 
mas quando oro o caranguejo se agarra com mais força
e a dor aumenta.

Uma vez sonhei,
talvez fosse um sonho, 
que o caranguejo era minha ignorância de Deus.
Mas quem sou eu pra acreditar em sonhos?

(tradução minha de SEXTON, Anne. The Poet of Ignorance (from The Awful
Rowing Toward God) in The Complete Poems: Houghton Mifflin Company Boston, 1981)



sábado, 2 de setembro de 2017

paciência




Esperar
a recusa em mastigar cartilagem
perder os dentes

bicho prostrado consumido
no próprio peso em correntes

o algoritmo
implantado nas curvas do arúspice

antes que tudo passe pelo nada
ou pelas fomes várias
penso na rendição

                              olhos fechados

passes para o surto
de rasga-mortalhas
dentro da noite engolida

                                                                              
                                                                                  (in RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)


*Sobre o lançamento de Glitch, clique aqui.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

azedo


ribengage, oriebiro, jul, '17

o motor de ventilador que me aluga as costelas recorda de toda sorte que recorre aos cascudos passados para entender do que é feita e como vai a força plástica que me foge do corpo ao modo da coragem e da esperança sob óleo de baleia queimando e se despede ao modo de um pombo cínico e faminto

depois de duas ou três corridas pelo bairro me refaço de tudo aquilo falado inclusas mentiras e ânsias encruadas no dna de homens e gansos sonho com a cretinice que enfia o dedo na justiça como se isso fosse tudo que se pode fazer depois que tudo se perde nos cantos exatos de uma ilha e ressurjo babão toda manhã na fantasia de meu assassino rubricando projetos de lei

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

r.i.p. (rest in the past)


selfieportrait, jul 17, oriebiro


Expurgare  você é o dedo, a ânsia ou o vômito nesse vaso?

Expurgare  sou eu o vício, no que há o vício ou o porquê do vício?

Expurgare  o que há embaixo da cama: tua demonice ou o passado em que te guardo?

Expurgare  às voltas com as contas que não batem, o que há e prolonga esse chá de cadeira da mente?

Expurgare  o olho que obseda se contenta em espaço reptiliano e o quanto disso é falta de vergonha na cara?

Expurgare — a morte na área de serviço da memória é um homicídio ou um estilicídio?


sexta-feira, 2 de junho de 2017

menino



O roteiro da parte II de um filme moderadamente bom, contido em todas as manhãs: é sobre como tuas orelhas me desesperam, intrigado com a vida. Tem a parte da fuga, da catarse: lágrimas e gozo do mesmo esconderijo.

E do sentimento – sei lá como chamam –, há a tentativa de medi-lo, caminhar descalço um longo rio. Dar sentido a essa caminhada, como às palavras, essas flechas que se desviam. Estou triste como coisa constituída e institucionalizada, quebra de uma regra auto-imposta sobre regressões. 

oriebiro, firefighter, mai '17

Temo lembrar da tua voz e corpo uníssono, que me põe acima desses passeios da rotina. E a questão em tudo isso é mais que desejo, se não nos veria além dos penhascos, forças abissais me perfurando o espírito: que razão (como um café ou um pente) há nisso, nesse ver que não se contenta em olhar? Por que queima meu corpo e o sentido é de nada se padeço de entender coisa alguma? 

Pudesse eu te conhecer pelos grunhidos ocultos de uma cidade escura... Na existência sozinha de um objeto solipsista, permaneço à beira do ponte, entre ciência e insistência, estoicismo e fogueira. 

Talvez isso seja o motivo de ser desse grito: antes de morrer, pisar em ovos, correr em brasas, dança esdrúxula na corda-bamba, queimar por queimar, além do adubo que serei.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Comprando a puta [Buying The Whore, Anne Sexton]



oriebiro, mai 17. selfsuck

Você é o assado que comprei
e te recheio com minha própria cebola.

Você é um barco que alugo por hora
e te conduzo com raiva até te arrebentar.

Você é um copo que paguei para quebrar
e engulo os cacos com cuspe.

Você é a grelha em que aqueço as mãos trêmulas,
selando a carne até o ponto certo.

Você fede ao sutiã usado da mamãe
e vomito em tua mão qual um caça-níquel
as frias moedas de 25.

***

You are the roast beef I have purchased
and I stuff you with my very own onion.

You are a boat I have rented by the hour
and I steer you with my rage until you run aground.

You are a glass that I have paid to shatter
and I swallow the pieces down with my spit.

You are the grate I warm my trembling hands on, 
searing the flesh until it's nice and juicy.

You stink like my Mama under your bra
and I vomit into your hand like a jackpot
its cold hard quarters. 

(Buying the whore, Anne Sexton. Versão: Sebastião Ribeiro)

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Claramente o objetivo dessa versão, além do exercício em si, é aproximar alguns dessa linda que foi a Sexton. Tenho uma admiração e conexão por este texto e sei que não há versão em português que o faça tão eficaz como em inglês. Mas acredito que vale a tentativa de transcriação/localização.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A a B



para G.

Em te ver só concebo o retorno
às falhas dispostas pelas nuvens na
casa silente onde o rodapé murmura
que eu salte e ricocheteie
perdido e esticado no calor do sonho
guarda dos ditos que cercaram-me
a queda pronta e embalada sem que eu
estivesse presente nem tu holograma
me lembrando as costelas
presa inútil ao movimento de fuga
concedido ao primeiro que tentou
te fez aceso, implodido no início
inexato atraindo nossos voos ao chão
queimando a chegada de nossos corpos
inchados, povoados de luas dissolvidas
na espuma bêbada que contém nossos fins

(poema selecionado para publicação na antologia do XIII Concorso Internazionale di Poesia e Teatro Castello di Duino - 2016)




quarta-feira, 1 de março de 2017

Divulgando Livros e Autores da Scortecci: Entrevista com Sebastião Ribeiro - Autor de: GLITCH


Sebastião Ribeiro (São Luís – MA, 1988) é graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão. Componente da obra Acorde (Scortecci, 2011), com Igor-Pablo e Wesley Costa; pode ser lido em Macondo n. 6 (2012); Samizdat n. 39, e Substânsia n. 3 (2014), 7faces n. 11 (2015) e Philos n. 2 (2016). Autor de & (Scortecci, 2015). 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

glitch (exhibit G)




Idos

Me coça o coração até que fira
arame esticado cerca ao contrário

estar é algo extenso
espera cada célula se desfazer
inseto oco mínimo e implodido
ou o tempo gotejando da pedra
invenção de um espírito

bouazizi palach quang duc em prece
as formas que viver toma desfilam
em ciranda

estamos aqui dispostos ao corte
ou nos levam ou nos deixamos

você e sua boca de fogueira
suportam bem basta-lhe cuspir
não nós

que fazer além da chama?

Contar o peso das moedas
infiltrar sinais de rádio
no fundo do ribeiro onde
me consignaram o calor

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)


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