segunda-feira, 3 de julho de 2017

r.i.p. (rest in the past)


selfieportrait, jul 17, oriebiro


Expurgare  você é o dedo, a ânsia ou o vômito nesse vaso?

Expurgare  sou eu o vício, no que há o vício ou o porquê do vício?

Expurgare  o que há embaixo da cama: tua demonice ou o passado em que te guardo?

Expurgare  às voltas com as contas que não batem, o que há e prolonga esse chá de cadeira da mente?

Expurgare  o olho que obseda se contenta em espaço reptiliano e o quanto disso é falta de vergonha na cara?

Expurgare — a morte na área de serviço da memória é um homicídio ou um estilicídio?


sexta-feira, 2 de junho de 2017

menino



O roteiro da parte II de um filme moderadamente bom, contido em todas as manhãs: é sobre como tuas orelhas me desesperam, intrigado com a vida. Tem a parte da fuga, da catarse: lágrimas e gozo do mesmo esconderijo.

E do sentimento – sei lá como chamam –, há a tentativa de medi-lo, caminhar descalço um longo rio. Dar sentido a essa caminhada, como às palavras, essas flechas que se desviam. Estou triste como coisa constituída e institucionalizada, quebra de uma regra auto-imposta sobre regressões. 

oriebiro, firefighter, mai '17

Temo lembrar da tua voz e corpo uníssono, que me põe acima desses passeios da rotina. E a questão em tudo isso é mais que desejo, se não nos veria além dos penhascos, forças abissais me perfurando o espírito: que razão (como um café ou um pente) há nisso, nesse ver que não se contenta em olhar? Por que queima meu corpo e o sentido é de nada se padeço de entender coisa alguma? 

Pudesse eu te conhecer pelos grunhidos ocultos de uma cidade escura... Na existência sozinha de um objeto solipsista, permaneço à beira do ponte, entre ciência e insistência, estoicismo e fogueira. 

Talvez isso seja o motivo de ser desse grito: antes de morrer, pisar em ovos, correr em brasas, dança esdrúxula na corda-bamba, queimar por queimar, além do adubo que serei.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Comprando a puta [Buying The Whore, Anne Sexton]



oriebiro, mai 17. selfsuck

Você é o assado que comprei
e te recheio com minha própria cebola.

Você é um barco que alugo por hora
e te conduzo com raiva até te arrebentar.

Você é um copo que paguei para quebrar
e engulo os cacos com cuspe.

Você é a grelha em que aqueço as mãos trêmulas,
selando a carne até o ponto certo.

Você fede ao sutiã usado da mamãe
e vomito em tua mão qual um caça-níquel
as frias moedas de 25.

***

You are the roast beef I have purchased
and I stuff you with my very own onion.

You are a boat I have rented by the hour
and I steer you with my rage until you run aground.

You are a glass that I have paid to shatter
and I swallow the pieces down with my spit.

You are the grate I warm my trembling hands on, 
searing the flesh until it's nice and juicy.

You stink like my Mama under your bra
and I vomit into your hand like a jackpot
its cold hard quarters. 

(Buying the whore, Anne Sexton. Versão: Sebastião Ribeiro)

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Claramente o objetivo dessa versão, além do exercício em si, é aproximar alguns dessa linda que foi a Sexton. Tenho uma admiração e conexão por este texto e sei que não há versão em português que o faça tão eficaz como em inglês. Mas acredito que vale a tentativa de transcriação/localização.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A a B



para G.

Em te ver só concebo o retorno
às falhas dispostas pelas nuvens na
casa silente onde o rodapé murmura
que eu salte e ricocheteie
perdido e esticado no calor do sonho
guarda dos ditos que cercaram-me
a queda pronta e embalada sem que eu
estivesse presente nem tu holograma
me lembrando as costelas
presa inútil ao movimento de fuga
concedido ao primeiro que tentou
te fez aceso, implodido no início
inexato atraindo nossos voos ao chão
queimando a chegada de nossos corpos
inchados, povoados de luas dissolvidas
na espuma bêbada que contém nossos fins

(poema selecionado para publicação na antologia do XIII Concorso Internazionale di Poesia e Teatro Castello di Duino - 2016)




quarta-feira, 1 de março de 2017

Divulgando Livros e Autores da Scortecci: Entrevista com Sebastião Ribeiro - Autor de: GLITCH


Sebastião Ribeiro (São Luís – MA, 1988) é graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão. Componente da obra Acorde (Scortecci, 2011), com Igor-Pablo e Wesley Costa; pode ser lido em Macondo n. 6 (2012); Samizdat n. 39, e Substânsia n. 3 (2014), 7faces n. 11 (2015) e Philos n. 2 (2016). Autor de & (Scortecci, 2015). 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

glitch (exhibit G)




Idos

Me coça o coração até que fira
arame esticado cerca ao contrário

estar é algo extenso
espera cada célula se desfazer
inseto oco mínimo e implodido
ou o tempo gotejando da pedra
invenção de um espírito

bouazizi palach quang duc em prece
as formas que viver toma desfilam
em ciranda

estamos aqui dispostos ao corte
ou nos levam ou nos deixamos

você e sua boca de fogueira
suportam bem basta-lhe cuspir
não nós

que fazer além da chama?

Contar o peso das moedas
infiltrar sinais de rádio
no fundo do ribeiro onde
me consignaram o calor

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

P


Estas linhas são âncoras. E também anzóis, que expõem, acima de tudo, minhas vitórias, pois as quedas estão bem-dispostas aos meus pés. Fui envolvido. Envolvi. Ganhei. Perdi. Chorei. Ressurgi. Chorei mais. A verdade é que ainda choro vezenquando. Estou vivendo sem medidas. Todos os caminhos parecem embaçados. Não pertenço a lugar algum além desse em que fui deixado. Sei disso. Muito bem. Tanto que, consciente, prefiro o lugar da dor. É o que conheço. Me previne de estar ao vento. Ainda que você claramente tenha me jogado ao mar. Você, cheio de defeitos. Qualidades, algumas. Mas suficientes para me levar a algum motivo novo, outra implícita faceta da minha vida. Peguei o que tinha e me joguei. Até em teu beijo chorei. Você me tomou nos braços e disse que estava ali. Ali eu sabia que estava perdido. Hoje eu revolto a perda. Balanço-a, insípido, idiota. Cego. Cego das coisas que ainda virão. O Universo é testemunha, eu tento. Drago-me, arrasto com forças tudo que era antes de você. De tanto puxar, deixar ir, apadrinhar, sentar num banco de shopping e marinar no travesseiro, decido ser por mim. Você ri, vive como se nada aconteceu. Provável que para você foi assim. Agora sei. Oh, life is bigger, bigger than you and you are not me. Não cantarei vitória ainda e não verei as flores se abrirem na madrugada. Eu deixarei. O que tenho é ar nos pulmões, uma história antes de você e uma antes de mim mesmo. Conhecendo a mim, nada será fácil. Você estará aqui. Como no dia em que chorei em teu beijo. Só que agora, na cabeça, solto tuas mãos. Vá para onde quiser, não devo nada em tua cabeça. Me agarrei a uma centelha, e vejam só que ironia, de fato ela causou incêndios. Então que a chuva venha e se misture às minhas lágrimas. Ela passará. E ao fim ou mesmo antes, eu serei mais que eu. Continuarei caminhando, com meus esperancismos... Feito de memórias e de lírios.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

glitch (exhibit F)



Júnior

cemitério & jardim
mesma linha d’água
descanso em pedras de sal

RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

dexembro


Não estar em si, mais que a perda de controle, confirma a antiga história de que é possível alguém enxergar e não ver; é possível que o controle seja todo perda e a perda, um convite, a tomar algum controle.

Eu, todo desejo e apreensão, me lancei de encontro às pedras e, nesse instante, sei cada osso meu triturado pela força de minúsculos épicos, clichês injetados em nosso dna, dos quais não poderia prever o poder e alcance.

Diz a canção: 'looking for Heaven, found the devil in me' ... e assim me certifiquei que somos todos fados antigos, dispostos grãos de areia... Querer é veneno, licor e gasolina. Vórtices continuarão a chegar. O que farei?

Inspiro e seguro minha própria mão, cantarolando paraíso e inferno num só gesto. Defenestrado e sem esperancismos. Mas querendo. 

E levando...


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