domingo, 1 de julho de 2018

[uma viagem de metrô]/ [a subway ride], Joseph O. Legaspi


Sua maestralmente desarrumada loiríssima cabeça sustenta fones de ouvido gigantes. Como um busto contemporâneo. Vejo a inocência das sardas, a boca túrgida, vermelha e madura. Como se a mera visão do mundo o machucasse, ele semicerra ingenuamente os olhos e aplica colírio. Você sonha com ele chorando por você. Pela duração de uma viagem de metrô você se apaixona cegamente. Até que ele desça. Ou até que você desça, indo pra casa ao que você realmente ama para feri-lo.*



His artfully unkempt strawberry blonde head sports outsized headphones. Like a contemporary bust. Behold the innocence of the freckles, ripe pout of cherry lips. As if the mere sight of the world hurts him, he squints greenly and applies saline drops. You dream him crying over you. For the duration of a subway ride you fall blindly in love. Until he exits. Or you exit, returning home to the one you truly love to ravish him.

§  §  §

*Tradução minha de LEGASPI, Joseph O. [a subway ride]. in Subways: Thrush Press, 2013. leia mais sobre o autor aqui (in English).


domingo, 6 de maio de 2018

currículo [resumé, dorothy parker]


Resumé

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


Currículo

Navalhas te ferem;
Rios são úmidos;
Ácidos te marcam;
E drogas dão câimbra.
Armas não são legais;
Nós corrediços cedem;
Gas cheira muito mal;
Tu podes apenas viver.

(tradução minha de PARKER, Dorothy. Resumé. in The Portable Dorothy Parker. New York: Viking Press, 1973)



Conheça melhor a autora AQUI.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

quibano



A 1ª edição da antologia Quibano - 15 poetas do Maranhão, da qual tenho o prazer e honra de fazer parte, pode ser lida e baixada aqui.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

idade de consentimento


Não consigo satisfação até falar com anjos
Preciso mirar o olho de deus
lançar meu ser ao cosmos como isca aos milagres
tomar o ar e derramar visões
destrancar aquela porta que já está aberta e entrar na presença
do que não consigo imaginar

Preciso de respostas para o que ainda não sei as perguntas

Exijo acesso ao conhecimento, à possibilidade dentro do milagroso
a presença da luz massacrante

talvez do mesmo modo que lagartas exigem suas asas lepdópteras 
ou girinos exigem sua sapice
ou o filho do homem exige a saída
do seguro, morno útero

*


Age of Consent

I cannot be satisfied until I speak with angels
I require to behold the eye of god
to cast my own being into the cosmos as bait for miracles
to breathe air and spew visions
to unlock that door which stands already open and enter into the presence
of that which I cannot imagine

I require answers for which I have not yet learned the questions

I demand the access of enlightenment, the permutation into the miraculous
the presence of the unendurable light

perhaps in the same way that caterpillars demand their lepidoptera wings
or tadpoles demand their froghood
or the child of man demands his exit
from the safe warm womb

(tradução minha de Age of Consent in KANDEL, Lenore. Collected Poems of Lenore Kandel/with a preface by Diane di Prima. Berkeley, California: North Atlantic Books, 2012)
__________________________________

Lenore Kandel (14.01.1932. Nova Iorque - 18.10.2009, São Francisco) foi uma poeta americana, ligada ao movimento beat. Em vida, publicou pouquíssimo -- formalmente falando, entretanto sua poesia, carregada de um sentimento/entendimento erótico, causou impacto. 

A razão desta tradução foi o deslumbramento com o texto Age of Consent, motivado pela curiosidade em conhecer mais de Kandel. Fui impelido e inspirado à busca pela notícia de que Kandel tratava a poesia como uma experiência de autoconsciência (tanto que via um problema em tratá-la como algo à vista e disposição de todos; a poesia perderia muito do seu propósito original, salvo minha ignorância). 

Perdido como estou, relembrar disso me ajuda a destravar algumas pendências do meu caminho e relação com a poesia. Se isso será o bastante, não sei dizer ainda; mesmo que não, já vale como um apito em minha cabeça. 

Esta é minha forma de agradecer e homenagear Kandel.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

face à


A mensagem está dormente (ou será cansada). Opressões circundam o meio-termo da liberdade. Entre doente e estranho, de alguma forma o corpo está pendurado à sorte de um todo: povo, cultura, política, seu vômito, a desesperança e meu resto de dignidade. 


Assim, enlameado, preso pelo pescoço a um poste velho, reconheço outros cães. Mas ainda só espero. O caminho me será mostrado. 

Aguardo-me.


sábado, 4 de novembro de 2017

rubrica


O poeta no bunker de seu poema
parte à África

O poeta que mudo escreve louco
permanece no canto de quarto
cheio da tarde

O poeta sem escolha no casaco velho do passado
O poeta no espelho e no conjunto residencial

O poeta sem unhas no desejo de
mastigar olhos escuros
O poeta na era cristã salivando meninos

O poeta sem poder ou coquetel molotov
possível ao couro da autoridade

O poeta na gaveta da meia-noite inteira
sem nada nos dedos
O poeta com medo de não ser convidado
O poeta que está nunca o sendo
O poeta cantando no último ônibus
O poeta e o corte social

O poeta azul na garrafa de vodka
cansaço e refrigerante
O poeta possível na sala mal-iluminada
O poeta crível no incandefluorescente
O poeta merecido ao escuro movediço
O poeta na trilha do boy que o deixou
em slow-mo

O poeta assim assado cheio de atos
sem afagos
pois acreditam-no empobrecido
pela ferrugem dos braços

O poeta sem nome em seu nome
em neon ciente
das pernas que passam
física existente no momento
que aceitou-lhe um banco da praça


O poeta e a arte clássica do encobrir
testemunha o que fornica em teoria
O poeta em fins sem inteligência
possível em sua ausência

O poeta escroto quando pelas nove ainda
é um homem
O poeta moderno na feira sem quadro de giz
que se vira ao passarinho que diz ‘ei, você’

O poeta e a luta de clavas
O poeta e a esperança da morte natural
& sua ânfora de anáforas necessária
– não mais trocadilho de merda ou eco gratuito

O poeta e o piegas
a série cômica
a novidade
a semana passada

O poeta no futuro cheio de tudo que já é
O poeta e o silêncio que todos esperavam
O poeta e o que gostaria de pôr entre os lábios

O poeta na calçada
e o nada metafórico
que ali o respondia
O poeta e o modo de usar
dos dentes permitidos
O poeta e o anti-histamínico
quando da volta do açougue
atrás dum cão conhecido

O poeta e a mosca presa de repente
no ar-condicionado
Subitamente
o poeta e o que lhe interessa:
a fase fálica/oral

O poeta e a falta dele
(a falta dele) e do método monográfico
O poeta na fuga de Descartes menino
rumo às macieiras
O poeta e sua falta de mãos espalmadas
caminhos de percevejo
e inseto branco voador não-identificado

O poeta escondido-calado-criado
num lago entrevisto de girinos e diáfanos
O poeta para tanto
o bastante
o contudo
ele poeta ≤ ele poeta

O poeta em cento e vinte possíveis
versos prolixos

O poeta é a senhora de pernas tortas
vivendo a lição que ressurreição alguma trouxe.

                                                
(in RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015)

domingo, 1 de outubro de 2017

fcuk yuo



Estou movido pela perda de algumas cores, por essa areia nos dentes. Pelo atrito por quem acendi velas, altar de morcegos mortos no quintal.

Estou movido pela ânsia em correr de você. De ter mastigado os últimos trezentos dias, entre abúlico e sedento. Sou movido por tantas coisas que o resto é correr mesmo; não fugir, mas desviar da poça de lama em que você se transformou.

Estou movido por uma imagem no espelho que me cansa e intriga. Insiste como testemunha em meus sonhos. É o que posso fazer. Vamos correr, mas fora de gestos vãos. Estou movido pelo desejo em desejar cada vez menos.

Quer saber? Só desejo que você

se

foda

.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

the poet of ignorance/o poeta da ignorância



THE POET OF IGNORANCE

Perhaps the earth is floating,
I do not know.
Perhaps the stars are little paper cutups
made by some giant scissors,
I do not know.
Perhaps the moon is a frozen tear,
I do not know.
Perhaps God is only a deep voice
heard by the deaf,
I do not know.

Perhaps I am no one.
True, I have a body
and I cannot escape from it.
I would like to fly out of my head,
but that is out of the question.
It is written on the tablet of destiny
that I am stuck here in this human form.
That being the case
I would like to call attention to my problem.

There is an animal inside me,
clutching fast to my heart,
a huge crab.
The doctors of Boston
have thrown up their hands.
They have tried scalpels,
needles, poison gasses and the like.
The crab remains.
It is a great weight.
I try to forget it, go about my business,
cook the broccoli, open and shut books,
brush my teeth and tie my shoes.
I have tried prayer
but as I pray the crab grips harder
and the pain enlarges.

I had a dream once,
perhaps it was a dream,
that the crab was my ignorance of God.
But who am I to believe in dreams?

* * *



* * *

O POETA DA IGNORÂNCIA

Talvez a terra esteja flutuando,
não sei.
Talvez as estrelas sejam papel picadinho
por tesouras gigantes,
eu não sei.
Talvez a lua seja uma lágrima congelada,
não sei.
Talvez Deus seja apenas uma voz profunda
ouvida pelos surdos,
não sei.

Talvez eu seja ninguém.
Certo, tenho um corpo 
e não posso escapar dele.
Eu gostaria de sair de minha cabeça,
mas isso não vem ao caso.
Está escrito na tábula do destino 
que estou presa nessa forma humana.
Sendo esse o caso, 
gostaria de chamar atenção ao meu problema.

Há um bicho dentro de mim, 
se agarrando ávido ao meu coração, 
um enorme caranguejo.
Os médicos de Boston
lavaram suas mãos.
Tentaram bisturis, 
agulhas, venenos e afins.
O caranguejo permanece.
Um grande peso.
Tento esquecê-lo, fazendo minhas coisas,
cozinhando brócolis, abrindo e fechando livros,
escovando os dentes, amarrando os sapatos.
Tentei orações, 
mas quando oro o caranguejo se agarra com mais força
e a dor aumenta.

Uma vez sonhei,
talvez fosse um sonho, 
que o caranguejo era minha ignorância de Deus.
Mas quem sou eu pra acreditar em sonhos?

(tradução minha de SEXTON, Anne. The Poet of Ignorance (from The Awful
Rowing Toward God) in The Complete Poems: Houghton Mifflin Company Boston, 1981)



sábado, 2 de setembro de 2017

paciência




Esperar
a recusa em mastigar cartilagem
perder os dentes

bicho prostrado consumido
no próprio peso em correntes

o algoritmo
implantado nas curvas do arúspice

antes que tudo passe pelo nada
ou pelas fomes várias
penso na rendição

                              olhos fechados

passes para o surto
de rasga-mortalhas
dentro da noite engolida

                                                                              
                                                                                  (in RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)


*Sobre o lançamento de Glitch, clique aqui.


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