segunda-feira, 26 de agosto de 2019

mimo



Isso ou aquilo no
que é possível
igual o troco pouco
no bolso

exige riscos de balé
atordoado
esperar que sejas o
sabão de erva-doce no
banheiro do shopping
ou que percebas meus
sapatos vermelhos

talvez seja muito
em torno de minha
ingratidão –
rebelde iconoclasta
com rendimentos de 0,69%

niilistamente vivo
funcionário público
quase cristão

esmero essa liberdade tola
que me arranca dos saltos
porém quanto de meu impulso
te importa? entrego a questão
para o porrilhão de deuses
amaciados no travesseiro
de viscoelástico

eu
sendo a cortesã que veste
a saia de flamboyant
natural que acabe por me vencer
assolando o mundo em chamas

retornar dessa carraspana
com pérolas e cinzas na língua

(RIBEIRO, Sebastião. Glitch. São Paulo: Scortecci, 2017)

sábado, 4 de maio de 2019

as if i am someone else / como se eu fosse outrem [Douglas Piccinnini]


tanto depende
da autoridade

duma realidade
para me guiar

na lógica
da circunstância –

viver confortavelmente
mas desejar diferente.


Imagem de  Colin Behrens, modificada com Photomosh

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so much depends
on the authority

of a reality
to guide me

in a logic
of circumstance —

to live comfortably
yet desire differently.



*mais do poeta AQUI (em inglês).


segunda-feira, 22 de abril de 2019

the suicide kid / o garoto suicida [Charles Bukowski]



Fui ao pior dos bares
esperando ser
morto.
mas só consegui
ficar bêbado
de novo.
pior, os donos do bar
acabaram foi
gostando de mim.
lá eu tentei ser
empurrado num canto
escuro
e acabei bebendo
de graça
enquanto por aí
algum filho da mãe
coitado estava num leito de
hospital,
tubos saindo dele
lutando
para viver.
ninguém me ajudaria a
morrer já que
a bebida continuava
vindo,
já que o amanhã
me esperava
com seus grampos de aço
seu anonimato
fétido,
sua atitude
descuidada.
a morte nem sempre
vem correndo
quando você
a chama,
nem mesmo se você
o faz
de um castelo
iluminado
ou de um transatlântico
ou do melhor bar
do mundo (ou
do pior).
tal impertinência
só faz os deuses
hesitarem e
protelarem.
pergunte-me: tenho
72.*

.......................................



I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn’t always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I’m
72.

*tradução minha de BUKOWSKI, Charles. the suicide kid in Slouching Towards Nirvana: New Poems. Harper Collins Publishers, 2005

Mais do autor aquiaqui.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

These poems/ Esses poemas [June Jordan]


Esses poemas
são coisas que faço
no escuro
para te alcançar
quem quer que sejas
e
estás pronto?

Esses poemas
são pedras na água
que corre

esses versos esqueléticos
são braços desesperados por minha ânsia e amor.

Eu sou um estranho
aprendendo a adorar os estranhos
ao meu redor

quem quer que sejas
quem quer que eu me torne.


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These poems
they are things that I do
in the dark
reaching for you
whoever you are
and
are you ready?

These words
they are stones in the water
running away

These skeletal lines
they are desperate arms for my longing and love.

I am a stranger
learning to worship the strangers
around me

whoever you are
whoever I may become.

June Jordan (1936 - 2002)

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Conheça mais sobre a autora em seu site oficial aqui (em inglês) e neste perfil do blog Escamandro, aqui (em português).


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

historieta / joke [Maggie Smith]



No que acho ser um sonho,
vejo uma manifestação do passado

& digo, sei que você não é real. Tenho que dizer.
Como a maioria das coisas de sonho, o passado

remodela-se, reconstitui-se com novos
olhos & novo penteado – o passado

transformado – & então esqueço seu nome.
Esqueço o que estou fazendo com ele.

Como é mesmo aquela historieta sobre o rio?
Não é assim, uma piada, não mais que o passado

seja mesmo passado – aquela sobre a água nunca
ser a mesma água. E ao passo que corre,

a corrente do rio – agora, isso sim é uma piada –
está sempre passando agora agora agora. Depois

das sete, quando acordo do que acho que
seja um sonho – sonho onde digo ao passado

a verdade sobre ele mesmo – ele é o presente
de sempre. Não há passado.



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Joke

In what I think is a dream,
I look at some manifestation of the past

& say, I know you’re not real. Someone has to.
As most dream-things do, the past

shapeshifts, reconstitutes itself with new
eyes & a new haircut—the past

made over—& then I forget its name.
I forget what I’m doing with the past.

What is that joke about the river?
It’s not really a joke, no more than the past

is really past—the one about water never
being the same water. As it flows past,

the river’s current—now that’s a joke—
is always flowing now, now, now. Past

seven, when I wake from what I think
is a dream—a dream where I tell the past

the truth about itself—it is the present
as it always is. There is no past.

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Conheça melhor a autora AQUI (en español) e AQUI (in English).


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

um livro de música / a book of music [Jack Spicer]


Chegando a um fim, os amantes
exaustos como se houvessem nadado. Onde
acabou? Não houve anúncio. Amor algum
é oceano de procissão tonteada no limite das ondas
onde os dois emergem exauridos, nem longo adeus
como a morte.
Chegando a um fim. Bem, eu diria, como a altura de
um rolo de corda
que não disfarça na ponta das tranças
seus fins.
Mas, você dirá, nós amamos
e algumas partes de nós amaram
e o resto de nós permanecerá
duas pessoas. Sim,
a poesia termina como uma corda.

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Coming at an end, the lovers
Are exhausted like two swimmers. Where
Did it end? There is no telling. No love is
Like an ocean with the dizzy procession of the waves’ boundaries
From which two can emerge exhausted, nor long goodbye
Like death.
Coming at an end. Rather, I would say, like a length
Of coiled rope
Which does not disguise in the final twists of its lengths
Its endings.
But, you will say, we loved
And some parts of us loved
And the rest of us will remain
Two persons. Yes,
Poetry ends like a rope.

***



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

medo



à boca da cachoeira estão as palavras. o pesado silêncio está nos anos imensos dentro das pedras. o corpo dói prevendo a queda: d'água, abismada.

o mundo sorve meu riso pouco, o grito pequeno. sobrevoo micro-suficiências. oro feito uma folha velha pela sorte dos meus, por nossa vida.

momentos se acumulam sob explosões desentendidas. o peso do medo mastiga minhas costas. me equilibro entre o mergulhar e o sumir.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

escrever 2


PHOTOMOSH em foto de Craig Cooper on Unsplash

Luto contra ou por um temor. Se é perda, euforia, cegueira ou canibalismo, não consigo avaliar. Talvez seja tudo. E mais um pouco. 

Não desvio mais do silêncio. Porém, reflito: até quando dorme, até onde chega. De qual intenção é, para que, alguém ganhará algo disso?

Os dias pesam em meu estômago, não parecem nem alegria nem tristeza, nem aparente motivo (que se foda o poeta, Cecília.)... Os dias pesam no remodelo do futuro.

Os dias: eu os sorvo, os digo, não os conto.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

escrever



Escrever -- necessito. Mas sem acreditar no que vejo. Esperar os estalos sem surpresa. Correr de algo, sem esperança. 

Escrever como quem não desiste, mas aguarda. Como quem afasta, mas nutre. Que a vida não faça aquela curva que nos apresenta o precipício.

Escrever, mas como quem gora. Como quem se judia, se morde. Escrever como quem tropeça e vê que a pedra é o futuro e não será terra para vermes antes de nós.


domingo, 1 de julho de 2018

[uma viagem de metrô]/ [a subway ride], Joseph O. Legaspi


Sua maestralmente desarrumada loiríssima cabeça sustenta fones de ouvido gigantes. Como um busto contemporâneo. Vejo a inocência das sardas, a boca túrgida, vermelha e madura. Como se a mera visão do mundo o machucasse, ele semicerra ingenuamente os olhos e aplica colírio. Você sonha com ele chorando por você. Pela duração de uma viagem de metrô você se apaixona cegamente. Até que ele desça. Ou até que você desça, indo pra casa ao que você realmente ama para feri-lo.*



His artfully unkempt strawberry blonde head sports outsized headphones. Like a contemporary bust. Behold the innocence of the freckles, ripe pout of cherry lips. As if the mere sight of the world hurts him, he squints greenly and applies saline drops. You dream him crying over you. For the duration of a subway ride you fall blindly in love. Until he exits. Or you exit, returning home to the one you truly love to ravish him.

§  §  §

*Tradução minha de LEGASPI, Joseph O. [a subway ride]. in Subways: Thrush Press, 2013. leia mais sobre o autor aqui (in English).


domingo, 6 de maio de 2018

currículo [resumé, dorothy parker]


Resumé

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


Currículo

Navalhas te ferem;
Rios são úmidos;
Ácidos te marcam;
E drogas dão câimbra.
Armas não são legais;
Nós corrediços cedem;
Gas cheira muito mal;
Tu podes apenas viver.

(tradução minha de PARKER, Dorothy. Resumé. in The Portable Dorothy Parker. New York: Viking Press, 1973)



Conheça melhor a autora AQUI.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

quibano



A 1ª edição da antologia Quibano - 15 poetas do Maranhão, da qual tenho o prazer e honra de fazer parte, pode ser lida e baixada aqui.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

idade de consentimento


Não consigo satisfação até falar com anjos
Preciso mirar o olho de deus
lançar meu ser ao cosmos como isca aos milagres
tomar o ar e derramar visões
destrancar aquela porta que já está aberta e entrar na presença
do que não consigo imaginar

Preciso de respostas para o que ainda não sei as perguntas

Exijo acesso ao conhecimento, à possibilidade dentro do milagroso
a presença da luz massacrante

talvez do mesmo modo que lagartas exigem suas asas lepdópteras 
ou girinos exigem sua sapice
ou o filho do homem exige a saída
do seguro, morno útero

*


Age of Consent

I cannot be satisfied until I speak with angels
I require to behold the eye of god
to cast my own being into the cosmos as bait for miracles
to breathe air and spew visions
to unlock that door which stands already open and enter into the presence
of that which I cannot imagine

I require answers for which I have not yet learned the questions

I demand the access of enlightenment, the permutation into the miraculous
the presence of the unendurable light

perhaps in the same way that caterpillars demand their lepidoptera wings
or tadpoles demand their froghood
or the child of man demands his exit
from the safe warm womb

(tradução minha de Age of Consent in KANDEL, Lenore. Collected Poems of Lenore Kandel/with a preface by Diane di Prima. Berkeley, California: North Atlantic Books, 2012)
__________________________________

Lenore Kandel (14.01.1932. Nova Iorque - 18.10.2009, São Francisco) foi uma poeta americana, ligada ao movimento beat. Em vida, publicou pouquíssimo -- formalmente falando, entretanto sua poesia, carregada de um sentimento/entendimento erótico, causou impacto. 

A razão desta tradução foi o deslumbramento com o texto Age of Consent, motivado pela curiosidade em conhecer mais de Kandel. Fui impelido e inspirado à busca pela notícia de que Kandel tratava a poesia como uma experiência de autoconsciência (tanto que via um problema em tratá-la como algo à vista e disposição de todos; a poesia perderia muito do seu propósito original, salvo minha ignorância). 

Perdido como estou, relembrar disso me ajuda a destravar algumas pendências do meu caminho e relação com a poesia. Se isso será o bastante, não sei dizer ainda; mesmo que não, já vale como um apito em minha cabeça. 

Esta é minha forma de agradecer e homenagear Kandel.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

face à


A mensagem está dormente (ou será cansada). Opressões circundam o meio-termo da liberdade. Entre doente e estranho, de alguma forma o corpo está pendurado à sorte de um todo: povo, cultura, política, seu vômito, a desesperança e meu resto de dignidade. 


Assim, enlameado, preso pelo pescoço a um poste velho, reconheço outros cães. Mas ainda só espero. O caminho me será mostrado. 

Aguardo-me.


sábado, 4 de novembro de 2017

rubrica


O poeta no bunker de seu poema
parte à África

O poeta que mudo escreve louco
permanece no canto de quarto
cheio da tarde

O poeta sem escolha no casaco velho do passado
O poeta no espelho e no conjunto residencial

O poeta sem unhas no desejo de
mastigar olhos escuros
O poeta na era cristã salivando meninos

O poeta sem poder ou coquetel molotov
possível ao couro da autoridade

O poeta na gaveta da meia-noite inteira
sem nada nos dedos
O poeta com medo de não ser convidado
O poeta que está nunca o sendo
O poeta cantando no último ônibus
O poeta e o corte social

O poeta azul na garrafa de vodka
cansaço e refrigerante
O poeta possível na sala mal-iluminada
O poeta crível no incandefluorescente
O poeta merecido ao escuro movediço
O poeta na trilha do boy que o deixou
em slow-mo

O poeta assim assado cheio de atos
sem afagos
pois acreditam-no empobrecido
pela ferrugem dos braços

O poeta sem nome em seu nome
em neon ciente
das pernas que passam
física existente no momento
que aceitou-lhe um banco da praça


O poeta e a arte clássica do encobrir
testemunha o que fornica em teoria
O poeta em fins sem inteligência
possível em sua ausência

O poeta escroto quando pelas nove ainda
é um homem
O poeta moderno na feira sem quadro de giz
que se vira ao passarinho que diz ‘ei, você’

O poeta e a luta de clavas
O poeta e a esperança da morte natural
& sua ânfora de anáforas necessária
– não mais trocadilho de merda ou eco gratuito

O poeta e o piegas
a série cômica
a novidade
a semana passada

O poeta no futuro cheio de tudo que já é
O poeta e o silêncio que todos esperavam
O poeta e o que gostaria de pôr entre os lábios

O poeta na calçada
e o nada metafórico
que ali o respondia
O poeta e o modo de usar
dos dentes permitidos
O poeta e o anti-histamínico
quando da volta do açougue
atrás dum cão conhecido

O poeta e a mosca presa de repente
no ar-condicionado
Subitamente
o poeta e o que lhe interessa:
a fase fálica/oral

O poeta e a falta dele
(a falta dele) e do método monográfico
O poeta na fuga de Descartes menino
rumo às macieiras
O poeta e sua falta de mãos espalmadas
caminhos de percevejo
e inseto branco voador não-identificado

O poeta escondido-calado-criado
num lago entrevisto de girinos e diáfanos
O poeta para tanto
o bastante
o contudo
ele poeta ≤ ele poeta

O poeta em cento e vinte possíveis
versos prolixos

O poeta é a senhora de pernas tortas
vivendo a lição que ressurreição alguma trouxe.

                                                
(in RIBEIRO, Sebastião. &. São Paulo: Scortecci, 2015)

domingo, 1 de outubro de 2017

fcuk yuo



Estou movido pela perda de algumas cores, por essa areia nos dentes. Pelo atrito por quem acendi velas, altar de morcegos mortos no quintal.

Estou movido pela ânsia em correr de você. De ter mastigado os últimos trezentos dias, entre abúlico e sedento. Sou movido por tantas coisas que o resto é correr mesmo; não fugir, mas desviar da poça de lama em que você se transformou.

Estou movido por uma imagem no espelho que me cansa e intriga. Insiste como testemunha em meus sonhos. É o que posso fazer. Vamos correr, mas fora de gestos vãos. Estou movido pelo desejo em desejar cada vez menos.

Quer saber? Só desejo que você

se

foda

.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

the poet of ignorance/o poeta da ignorância



THE POET OF IGNORANCE

Perhaps the earth is floating,
I do not know.
Perhaps the stars are little paper cutups
made by some giant scissors,
I do not know.
Perhaps the moon is a frozen tear,
I do not know.
Perhaps God is only a deep voice
heard by the deaf,
I do not know.

Perhaps I am no one.
True, I have a body
and I cannot escape from it.
I would like to fly out of my head,
but that is out of the question.
It is written on the tablet of destiny
that I am stuck here in this human form.
That being the case
I would like to call attention to my problem.

There is an animal inside me,
clutching fast to my heart,
a huge crab.
The doctors of Boston
have thrown up their hands.
They have tried scalpels,
needles, poison gasses and the like.
The crab remains.
It is a great weight.
I try to forget it, go about my business,
cook the broccoli, open and shut books,
brush my teeth and tie my shoes.
I have tried prayer
but as I pray the crab grips harder
and the pain enlarges.

I had a dream once,
perhaps it was a dream,
that the crab was my ignorance of God.
But who am I to believe in dreams?

* * *



* * *

O POETA DA IGNORÂNCIA

Talvez a terra esteja flutuando,
não sei.
Talvez as estrelas sejam papel picadinho
por tesouras gigantes,
eu não sei.
Talvez a lua seja uma lágrima congelada,
não sei.
Talvez Deus seja apenas uma voz profunda
ouvida pelos surdos,
não sei.

Talvez eu seja ninguém.
Certo, tenho um corpo 
e não posso escapar dele.
Eu gostaria de sair de minha cabeça,
mas isso não vem ao caso.
Está escrito na tábula do destino 
que estou presa nessa forma humana.
Sendo esse o caso, 
gostaria de chamar atenção ao meu problema.

Há um bicho dentro de mim, 
se agarrando ávido ao meu coração, 
um enorme caranguejo.
Os médicos de Boston
lavaram suas mãos.
Tentaram bisturis, 
agulhas, venenos e afins.
O caranguejo permanece.
Um grande peso.
Tento esquecê-lo, fazendo minhas coisas,
cozinhando brócolis, abrindo e fechando livros,
escovando os dentes, amarrando os sapatos.
Tentei orações, 
mas quando oro o caranguejo se agarra com mais força
e a dor aumenta.

Uma vez sonhei,
talvez fosse um sonho, 
que o caranguejo era minha ignorância de Deus.
Mas quem sou eu pra acreditar em sonhos?

(tradução minha de SEXTON, Anne. The Poet of Ignorance (from The Awful
Rowing Toward God) in The Complete Poems: Houghton Mifflin Company Boston, 1981)



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